Thaís Rafael
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra […]
(Carlos Drummond de Andrade)
Ao retomar o poema de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho”, podemos evidenciar que no meio do caminho existe uma pedra, existe uma pedra no caminho. Ao refletir sobre este poema á luz da psicanálise, podemos indagar que só existe caminho, pois existe uma pedra e só há o obstáculo da pedra porque alguém se pôs a caminho, ou seja, há pedra porque há caminho (Miller, 1998).
Existe uma pedra no qual nos deparamos ao entrarmos em análise, ao resolvermos caminhar e é sobre esta questão que gostaria de esboçar alguns comentários.
Primeiramente o ser falante tem inúmeros caminhos que ele elucida em sua trajetória analítica, ele vai ao trabalho, vai à casa de familiares, vai a seminários, ele vai e volta destes inúmeros caminhos diversas vezes. Contudo, há algo mais essencial, peculiar relacionado a este caminho que o ser falante percorre, é o caminho da sua fala. Aquilo que fica escamoteado, escondido e inaudível é a pedra desse seu caminho, da sua fala.
A fala que se repete, que não se esquece, que atrapalha o percorrer pelo caminho e fatiga o sujeito. Sendo assim,
[…] é somente naquilo que se chama de cura psicanalítica que ele se apercebe estar na rota do caminho de sua fala, e que nesse caminho tem uma pedra. A cura analítica é a experiência daquilo que significa estar – na – fala. Carlos Drummond de Andrade situa sua obra poética sob o título “Tentativa de exploração e interpretação do estar – no – mundo”. Digamos que a psicanálise é uma tentativa de exploração e de interpretação do estar – na – fala. (MILLER, 1998, p. 33).
Ademais, o caminho que importa para a cena analítica se trata do caminho da fala, contudo, a pedra que encontramos nesta cena também se trata da pedra da fala. O ser falante fala, percorre seu caminho e se depara com uma pedra que estar na fala ou no não dito de sua fala, pois nunca teremos acesso absoluto das falas do sujeito.
Freud (1937/1996) no texto “análise terminável e interminável”, dirá que mesmo que tenhamos acesso ao inconsciente, temos acesso apenas à parte dele, sempre há o que investigar, a descobrir, a revelar. O inconsciente sempre tem algo de novo para descortinar dentro da cena analítica.
É interessante pensarmos que o analisando em tratamento analítico ao falar, fala de suas questões, que com as intervenções e pontuações do analista pode vir a articular o que antes não fazia sentido. Miller, em seu livro “O osso de uma análise”, irá dizer:
[…] e é o que se constata também nos relatos de passe. Existem sujeitos que elucidaram sua repetição, que cingiram seu significante do destino, mas sua análise não está terminada, apesar disso, enquanto eles não cederem o gozo que poderia estar fixado a essa repetição e a esse significante […] (MILLER, 1998, p. 72).
Talvez esse “osso” citado por Miller (1998), seja justamente essa pedra, no qual o sujeito não esquece que há sempre um obstáculo em seu caminho, existe sempre um caminho a se percorrer e novas pedras a tropeçar. Pedras que se repetem, falas que não se calam, que não cessam em se manifestar.
Diante do exposto podemos pensar no que Bernardes (2003) abordou em seu livro, “Tratar o impossível. A função da fala em psicanálise”, pois se não temos acesso a todo conteúdo deste sujeito, a profissão de “analisar” é da ordem do impossível.
Quando Andrade (1975) relata em seu poema que nunca se esquecerá que no meio do caminho existe uma pedra, seja talvez, para demonstrar que ela estará sempre ali, sempre que alguém se dispuser a trilhar o caminho, ali estará a pedra.
A análise não irá acabar com a repetição dessa fala, não retirará do caminho essa pedra, mas dará um novo sentido ao caminho ou a pedra, ou ainda, simplesmente aceitar as pedras do caminho da trajetória. “O que é uma análise, se não aquilo que deve permitir ao sujeito assumir plenamente aquela que é sua própria estória” (LACAN, 1952, p. 5).
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de. “No meio do Caminho”. Em Antologia Poética. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975. 186 p.
BERNARDES, Angela C. Tratar o impossível: a função da fala na psicanálise. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. 172 p.
FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável (1937). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1987. v. 23, 225-274 p.
LACAN, Jacques. Seminário do homem dos lobos. 1952. Inédito. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/64010301/seminario-sobre-o-homem-dos-lobos. acesso em: 02/09/2013. MILLER, Jacques-Alain. O osso de uma análise. Seminário proferido no VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e II congresso da Escola Brasileira de Psicanálise. Salvador – Bahia – 17 a 21 de Abril de 1998. 131p.