Thaís Rafael
Introdução
Diante de toda construção da história da psicanálise e de todos os conceitos freudianos desenvolvidos ao longo de vários períodos, o que podemos destacar é, sem sombras de dúvidas, a visão freudiana quanto ao lugar ocupado pelo analista, ou seja, o abandono do lugar de mestria e sua inserção no inconsciente através da fala do analisando. (MILLER, 1988).
Podemos observar que Freud (1914/1996) iniciou o seu trabalho através dos estudos em pacientes histéricas dentro dos hospitais. Essas pacientes eram tratadas com descaso pela medicina da época, uma vez que seus sintomas, para ciência, perpassavam mais por uma teatralidade do que uma etiologia orgânica. Foi através da estranheza dos sintomas histéricos que nasce uma teoria, uma abordagem capaz de se diferenciar de toda psicologia desenvolvida. Assim, a psicanálise constrói uma identidade única se diferenciando até mesmo da psicologia e das práticas diversas de psicoterapia.
Portanto, a cerne do texto a seguir tem como objetivo retomar um pouco dessa trajetória história da psicanálise e contrapor sobre algumas posições psicoterápicas, que apesar de seus efeitos, que se diferenciam em muitos pontos da prática analista.
A Construção do saber psicanalítico
A Psicanálise nasceu no Séc. XIX, através dos estudos de um jovem médico Vienense Sigmund Freud (FREUD,1914/1996), que se interessou pelos casos das histéricas observando o trabalho de um neurologista chamado Charcot. Para este médico, a histeria deveria ter alguma causalidade orgânica, mudando de idéia posteriormente classificando-a como “[…] uma doença que escapa às mais penetrantes investigações anatômicas”. (GARCIA-ROZA, 2002, p. 32).
Freud (1914/1996) se interessou pelo método da hipnose, tendo trabalhado arduamente com a técnica a fim de se chegar a uma possível cura para histeria, que foi diagnosticada como uma causalidade psíquica e a não questões ligadas a etiologias orgânicas, como os médicos acreditavam.
Com o trabalho sobre a hipnose, Freud percebe que tal procedimento apenas eliminava o sintoma, mas não sua verdadeira causa. Com isso,
Freud propõe, então, que se empregue um método elaborado por Joseph Breuer e que consiste em fazer o paciente remontar, sob efeito hipnótico, à pré-história psíquica da doença a fim de que possa ser localizado o acontecimento traumático que originou o distúrbio (GARCIA-ROZA, 2002, p. 35).
Ainda com a hipnose, Freud inovou o procedimento, incluindo a sugestão como meio terapêutico, pois até então, Breuer em seu método aguardava que as pacientes chegassem ao ponto traumático. Com o uso da sugestão Freud podia eliminar o fato traumático recontando a cena apontada por suas pacientes.
Após um período, Freud (1914/1996) acabou abandonando a hipnose concluindo que tal método desloca o sintoma de lugar, mas não o eliminava completamente como acreditava, pois tal procedimento não alcança a raiz das verdadeiras questões histéricas – a sexualidade.
A questão da sexualidade é sim muito importante, mas o grande tesouro da Psicanálise se dá através das manifestações inconscientes trabalhas a finco por Sigmund Freud. Tal descoberta é o cerne de todo o trabalho freudiano. (GARCIA – ROZA, 2002).
Portanto, com o abandono da hipnose, Freud resolve trabalhar com que irá denominar de regra fundamental da Psicanálise, a associação livre. (FREUD, 1912/1996). Tal método permite que o sujeito, fale de suas questões livremente. Freud acreditava que com tal dispositivo seria possível alcançar as manifestações do inconsciente do sujeito, através dos chamados atos falhos, chistes, sonhos e sintomas, que o paciente irá manifestar durante o processo analítico.
Esses eventos ocorrem, por que o sujeito irá recalcar aquilo que sua consciência não suporta, isto é, o desejo, devido ao fato de que a experiência primordial de satisfação é impossível de ser revivida (FREUD, 1900/1996). Acerca disso, o livro “Freud e o Inconsciente” de Luiz Alfredo Garcia-Roza, explica as seguintes observações feitas pelo pai da Psicanálise.
Quando Freud abandona a hipnose e solicita aos seus pacientes que procurem se lembrar do fato traumático que poderia ter causado os sintomas, verifica que tanto a insistência quanto os esforços do paciente com uma resistência destes a que as idéias patogênicas se tornassem conscientes. Qual seria a natureza dessas idéias e por que geravam essa resistência? Analisando detalhadamente os casos de análise completa de que já dispunha, chegou à conclusão de que todas essas idéias eram de natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergonha, de autocensura e de dor psíquica. (GARCIA-ROZA, 2002, p. 37/38).
Pode-se dizer que o nascedouro da Psicanálise foi através dos estudos profundos sobre a histeria, no qual foram observados os acontecimentos que ocorriam com as pacientes, descobrindo assim, o fascínio de que nomeou como Inconsciente.
Psicanálise x Psicoterapia
A partir desse pequeno relato sobre a construção do saber psicanalítico, fica evidente a diferença do modo de trabalhar de um psicanalista e de um psicólogo, por exemplo, apto a intervir com a famosa psicoterapia. Sobre esta podemos dizer que sua prática ainda se fundamenta na sugestão.
Sobre esta questão no texto “Sobre a Psicoterapia” Freud cita sua responsabilidade quanto à prática psicoterápica, uma vez, que participou de sua construção, pois foi ele quem a criou, apesar de tê-la abandonado. “Em todos os casos graves, vi a sugestão introduzida voltar a desmoronar, e então reaparecia a doença ou um substituto dela” (FREUD, 1904 – 1905/1996, p. 247).
Não obstante, neste mesmo texto, Freud (1904 – 1905/1996) faz uma observação quanto à prática da psicoterapia e a terapia analítica, termo usado para referir sua atuação. Ainda sobre a sugestão, ele dirá que essa é uma forma de impedir que a expressão da idéia patogênica venha à tona. No que se refere à terapia analítica, esta tem a função de subtrair, ou seja, retirar das profundezas do sujeito a causa patogênica. A terapia analítica não pretende acrescentar algo de novo, mas apenas trazer algo de dentro para fora.
É importante ressaltar que a psicanálise se estabelece após o abandono da técnica hipnótica, passando pelo uso de técnicas sugestivas até se fixar em sua regra fundamental, a associação livre. O psicanalista então traçará uma investigação do inconsciente, a fim de que o analisando construa um saber acerca de suas questões até então desconhecidas. Sobre isso
[…] a descoberta freudiana não seria propriamente a existência do Inconsciente, mas a formalização deste como um fator determinante do psiquismo de um sujeito humano. O axioma do determinismo psíquico é o axioma da Psicanálise. O que fez a partir desta descoberta? Inventou o psicanalista, aquele que se propõe a analisar o psiquismo, aquele que, por meio de um procedimento bastante especifico, promoveria a revelação do inconsciente com o objetivo terapêutico de livrar o sujeito da angústia causada por aquilo que é seu, mas do qual nada sabe. (MORETTO, 2001, p. 24)
A Psicanálise irá trabalhar com as manifestações provenientes do inconsciente do sujeito. Elementos pertencentes a este sujeito, mas que por algum motivo foram recalcados. E essa dinâmica analítica, ocorre por algo precioso, definidor de todo processo analítico, essa preciosidade denominada como transferência.
Sobre o psiquismo, Miller (1997) vem dizer que tanto a psicoterapia e a psicanálise vinculam a causa psíquica do problema em questão, ou seja, ambas admitem a existência de uma realidade psíquica. Além disso, irão se valer também de uma transferência.
Freud erigiu a regra fundamental pela qual se acessa o caminho para o inconsciente, ou seja, a associação livre. Como já afirmado, a partir de sua intervenção por esta via, a transferência se estabelecerá, ressaltando que a esta não se constitui uma modalidade unívoca, possuindo vários aspectos. Portanto, será esta lógica de trabalho do analista que produzirá a constituição da transferência no contexto da clínica psicanalítica. (FREUD, 1912/1996).
Em outros termos, sob a rubrica do sujeito suposto saber, este conceito implicará à garantia ao paciente de que há um saber naquilo que é dito e que isso tem o seu valor. Não se trata de um sujeito que tudo sabe, embora possa ser produzida esta situação.
Sobre este ponto, podemos observar que uma das grandes diferenças estabelecidas entre a psicanálise e a psicoterapia é que esta, a psicoterapia, se vale do lugar de mestre, do lugar da sugestão, lugar este abandonado pela teoria freudiana. A psicanálise por sua vez, recusa a assumir este lugar de mestria. Além do mais, o inconsciente será o objeto central de todo desenrolar analítico. Ademais, a psicoterapia “trata-se de restituir ao eu (moi) suas funções de síntese e de maestria, sob o olho do mestre que desempenha o papel de modelo” (MILLER, 1997, p.13).
Contudo, existem semelhanças, segundo Miller (1997), as duas abordagens, tanto a psicanálise quanto a psicoterapia utilizam a fala, a palavra como técnica.
A partir dos ensinos e teorizações de Jacques Lacan (1953-1954/1986), pode-se notar que a linguagem passa a ser fundamental, na medida em que esta participa da estruturação do inconsciente. Dessa maneira, o inconsciente, ao sofrer as intervenções analíticas, exigindo, a cada dia, que os analistas pensem e re-pensem a sua prática. (MILLER, 1988).
Em algum momento é possível um diálogo entre a psicanálise e a psicoterapia, isso ocorre quando utilizamos a abordagem psicanalítica dentro de instituições, por exemplo, utilizando – se da psicanálise aplicada à terapêutica.
Segundo Miller (2002), no que diz respeito a psicanálise aplicada à terapêutica, iremos até um certo ponto do grafo do desejo, iremos nos valer do primeiro andar deste grafo. Com certeza, existem efeitos na primeira parte do grafo, no qual o psicanalista responsável irá dar um sentido para os significantes, irá nomeá-los, irá intervir. Às vezes fará o papel do Outro, mesmo que não permaneça neste lugar, mas irá fazer com que haja um efeito terapêutico. Sobre o andar de baixo do grafo do desejo Quinet traz algumas importantes observações:
Ao endereçar a sua fala ao analista no lugar do A, o sujeito transfere aquilo que é para ele o significado do Outro, ou seja, seu sintoma. Pela não resposta do analista, é possível ir para o patamar superior e não ficar circulando no circuito de baixo, que é, propriamente falando, o circuito imaginário, do sentido, da consciência, do eu do sujeito. […] As psicoterapias atuam nesse circuito trabalhando sobre o ego o significado do sintoma e reforçando os ideais. Já a psicanálise modifica essas instâncias atuando não sobre eles diretamente, e sim sobre suas determinações inconscientes (QUINET, 2003, p. 102).
É importante ressaltar, que a proposta não é transformar a psicanálise em psicoterapia, isso seria irrisório, mas o primeiro plano do grafo do desejo se assemelha com os efeitos produzidos em uma psicoterapia, mesmo que a Psicanálise não se proponha ficar neste primeiro plano.
Portanto, os efeitos de alivio frente a um sintoma, qualquer intervenção pode produzir. O foco das atuações psicoterapêuticas é, portanto, as relações imaginárias, restringindo-se àquilo que é demandado pelo paciente.
O sujeito institui assim um Outro que possua um significante mestre com a qual possa identificar-se e que o salve de ter que se tornar a seu próprio cargo. Até aqui estamos no campo das Psicoterapias, mas que é também ponto de inserção com a Psicanálise e sua possível porta de entrada. E a diferença, qual é? A diferença é que o psicanalista não responde as questões do sujeito. Não oferece significantes com os quais ele possa se identificar. Ele não se propõe calar o sintoma, mas interrogá-lo para que o saber inconsciente se movimente. (BAÊTA, 1996, p. 75).
É de suma importância que a psicanálise, mesmo a psicanálise aplicada à terapêutica, mantenha seu preceito primordial, a associação livre. É fundamental, que a psicanálise continue a se ater para o inconsciente do sujeito, que sua escuta seja uma escuta direcionada a fala do sujeito.
Conclusão
Podemos perceber então, que através dos estudos freudianos sobre a histeria que surge uma curiosa prática, a sugestão hipnótica, método capaz de remontar uma cena traumática através de um estado de rebaixamento da consciência. Assim, surge à sugestão, método posteriormente abandonado por Freud, que abre caminhos não somente para todo o trabalho analítico, mas também para práticas psicoterápicas.
É de suma importância observar que as duas abordagens se fazem valer, a partir da fala, da transferência e do endereçamento do sujeito, que busca uma cura. É possível encontrar um dialogo entre ambas, na medida em, que através da psicanálise aplicada à terapêutica, produzem um alívio sintomático e se encontram no plano primeiro do grafo do desejo.
As diferenças se destacam, quando ressaltamos a importância da prática analítica, mesmo dentro das instituições, de manter seus preceitos como, por exemplo, a associação livre. Além disso, a busca pelo inconsciente através das manifestações provenientes deste, que traçará a atuação do psicanalista.
Já a psicoterapia, se faz valer do lugar de mestria, respondendo as demandas do sujeito. Para a psicanálise, tal lugar, também é ocupado em certa medida, mas jamais deve se permanecer em tal patamar.
REFERÊNCIAS
BAÊTA, Maria de Lourdes. A transferência no hospital geral – uma questão polêmica. In: Revista Reverso. 1996.
FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico (1914). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XIV, 1996. 13-73 p.
FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento (1912). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XII,. 137 – 160 p.
FREUD, Sigmund. Sobre a Psicoterapia (1904 – 1905). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XIV, 1996. 244 – 254 p.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. A pré-história da psicanálise – 1. In: GARCIA-ROZA. Freud e o inconsciente. 16. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. 2-41p.
MILLER, Jacques-Alain. Psicanálise e psicoterapia. In: FORBES, Jorge (org). Psicanálise e psicoterapia. São Paulo: Papiros, 1997. 9 – 19 p.
Miller, Jacques-Alain. Psychanalyse purê, psychanalyse appliqué et psychothérapie. In: La cause freudienne, nº 48, 2002.
MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988.
MORETTO, Maria Lívia Tourinho. O que pode um analista no hospital? 3. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008. 217 p.
LACAN, Jacques. (1953-1954). Momento da resistência: In: LACAN, Jacques. O seminário, livro1:os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. p. 14-88.
QUINET, Antonio. Demanda e desejo. In: A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003. 87 – 116 p.