Os dois “nada” da anorexia

Ao nos debruçarmos sobre a prática psicanalítica na atualidade, ou melhor, ao vislumbrarmos as “novas” formações sintomáticas que se achegam a clínica, isto é, sobre algum ponto da contemporaneidade, logo surge como ponto de observação um tema recorrente nas produções acadêmicas e nos programas de pós-graduação, como é o caso da disciplina “O campo do consumo e gozo”, a saber, a anorexia.

Thaís Rafael

Ao nos debruçarmos sobre a prática psicanalítica na atualidade, ou melhor, ao vislumbrarmos as “novas” formações sintomáticas que se achegam a clínica, isto é, sobre algum ponto da contemporaneidade, logo surge como ponto de observação um tema recorrente nas produções acadêmicas e nos programas de pós-graduação, como é o caso da disciplina “O campo do consumo e gozo”, a saber, a anorexia. Tal tema, desperta certa curiosidade uma vez que esta modalidade de sintoma se faz cada vez mais presente em nossa sociedade, podendo revelar-se como produto de nossa era civilizatória.

Portanto, é na tentativa de melhor compreender as modalidades sintomáticas que afligem o sujeito contemporâneo que a temática em torno da anorexia ganha seu relevo. Frente a esse périplo alguns autores podem trazer luz à nossa pesquisa, e entre alguns nomes está Recalcati (2001), principalmente em seu texto: “Os dois “nada” da anorexia.

Segundo este autor, a porta de entrada para se refletir sobre a questão da anorexia é o nada. Isso implica pensar também que a anorexia perpassa pelo culto ao nada, principalmente quando as anoréxicas dizem: “gosto de nada, como nada”. Dessa maneira Recalcati (2001) irá extrair elementos precisos sobre os dados clínicos recolhidos, e o primeiro deles refere-se ao uso do termo anorexia no singular.

Tal assertiva corrobora com a ideia de que não existe uma categoria única de anorexia, ou seja, ela não é uma estrutura clínica, e devemos nos arguir sobre a utilização do termo no singular, uma vez que podemos pensar que sua manifestação é composta por várias formas e modalidades.

Portanto, não se trata de uma estrutura clínica, não obstante, é de fácil identificação, na medida em que a paciente já prontamente se identifica ao sintoma em jogo. Isso é um primeiro alerta que repercute a ideia de não nos deixarmos guiar pela tentação e atribuir a anorexia uma noção categoria clínica, antes, devemos pensar no aspecto singular apresentado por cada paciente. (RECALCATI, 2001).

De posse dessa primeira elaboração devemos entender de que “nada” se trata. Neste mesmo texto o autor irá trabalhar com dois modos distintos da presença “dos nadas” e com isso diferenciar as nuances da anorexia.

Primeiro nada e o simbólico

O primeiro nada irá corresponder há um objeto separador, diante de um Outro excessivo, seja no cuidado extremo e asfixiante, ou na falta de cuidado excessiva, ou seja, dois excessos. Quando a anoréxica recusa-se a alimentar-se, essa é uma posição que tem uma função, um endereçamento, ou seja, é uma maneira de barrar o Outro, de colocar a falta no Outro. E um ponto interessante se situa aqui: a anorexia costuma ter sua gênese na adolescência, e privilegia consideravelmente as mulheres.

Segundo Recalcati (2001) a adolescência é marcada como um ponto crucial da vida humana, e aqui a anorexia pode encontrar um estatuto fundamental; ela pode surgir como ponto de saída para os conflitos que ali se presentificam. Em suma, como ponto de saída frente às revivências dos conflitos edípicos marcados pela dimensão do trauma. Podemos inclusive recordar que Freud (1896/1996) encontrou seus primeiros elementos teóricos privilegiando a entrada traumática da mulher na adolescência, isso devido ao retorno de um evento excessivo da lembrança de uma atividade pulsional infantil.

Dito isso, pode-se afirmar que a adolescência envolve um instante de fragilidade, tanto das identificações imaginárias quanto simbólicas, e um constante imposição do real (CUNHA, 2012). A anorexia pode ser uma resposta frente ao dilema da adolescência, e nesse sentido também revela que existe uma dificuldade de simbolização.

Do tempo da impotência infantil frente ao Outro que lhe parece onipotente, até a adolescência como momento de separação, como recusa a esse Outro, pode haver desventuras, principalmente quando o Outro é asfixiante. De qualquer maneira para que surja o desejo, é preciso haver uma separação. (RECALCATI, 2001)

O sintoma anoréxico pode vir aqui, como objeto separador frente a um Outro asfixiante. O Outro da anoréxica é considerado por ela, pensando o primeiro paradigma do nada, como aquele que responde pela ordem da necessidade e que peca ao se furtar do dom do amor. A anorexia entra aqui, como uma maneira de chamar a atenção do Outro, de barrá-lo em suas respostas pela via da necessidade, e convocar seu amor.

Por isso, chama-se pseudo-separação, uma falsa separação do Outro, pois se busca algo do Outro, não há uma separação factual do Outro, uma vez que ela se liga a ele através da demanda de amor. Em alguns casos vomitar é uma recusa ao Outro, ao mesmo tempo em que se demanda algo dele; existe uma recusa do Outro, entretanto, é uma recusa com característica de apelo.

Este primeiro nada não é da ordem da necessidade e sim uma modalidade de defesa do desejo em busca de um lugar de amor, é nesta mesma perspectiva que faz emergir a falta no Outro. Podemos dizer também que a anoréxica, em sua presença corporal, marcada por um a debilidade e fragilidade devido a magreza, é uma forma de fazer-se invisível para ser vista e assim fazer valer seu desejo.

Portanto, o primeiro nada é uma defesa do desejo e uma demanda para além do objeto. É um apelo ao Outro, um apelo ao amor. Contudo de uma maneira precária que possui uma devastação para o corpo. Ora, podemos marcar aqui este dado clínico contemporâneo, que é justamente a fragilidade do eixo simbólico e da palavra, isto é, uma manifestação da precariedade do simbólico na atualidade. Vejamos o segundo nada e como ele se relaciona a esse momento civilizatório.

Segundo nada: efeito eclipse e o gozo

O segundo nada, segundo Recalcati (2001), há uma forma ainda mais mortífera de sua presença. Aqui a anoréxica some, se anula. Da mesma forma com que um eclipse no qual o sol some em seu encontro com a lua, existe um eclipse total da demanda no caso da anorexia. Trata-se aqui de uma dimensão psicótica.

O segundo nada não se apresenta como objeto separador e protetor do desejo. O sujeito aqui não pede nada ao Outro, ele não tem uma demanda a ele uma vez que está separado da demanda, existindo então, uma anulação do sujeito.

O segundo nada se remete a relação com o gozo e não com o desejo como é descrito no primeiro nada. Há toda uma atmosfera de uma ruptura radical ao campo do Outro e, por conseguinte, ao campo da palavra. Pode-se dizer que aquilo que Freud (1920/1996) elucubrou por nome de pulsão de morte, como uma inclinação pulsional ao retorno ao inanimado, se presentifica no segundo nada anoréxico. É um puro “desejo” de retornar ao nível zero de excitação.

Recalcati (2001) vai lembrar acertadamente o princípio do Nirvana que está ligada diretamente à pulsão de morte. Existe uma “nirvanização do sujeito”, que significa uma descarga que corresponde a uma pulsão no qual não se tem palavra só se tem gozo. Só se tem morte. Ora, é a pulsão de vida que proporciona a ligação do sujeito ao “mundo externo”, ou seja, ao campo do Outro, e assistimos no segundo nada a defusão dos instintos de morte que incidem sobre o sujeito em um retorno feroz com vistas ao gozo.

A pulsão de morte, como afirmado, visa o retorno ao estado nível zero de excitação. Já a pulsão de vida, perpassando aqui as pulsões sexuais e de auto-conservação visariam também esse objetivo, contudo, de maneira controlada e adiada. Os princípios de prazer e realidade estão a serviço da vida, no entanto marcando um conflito e uma divisão inerente ao sujeito. O que há de mais problemático no segundo nada é sua tendência a nivanização que abole a divisão, acentuando um empuxo ao gozo.

Portanto, neste segundo nada existe uma solidificação do sujeito a serviço da pulsão de morte, uma tendência ao zero, ou seja, uma descarga total da energia pulsional. Existe ai, uma paixão pela anulação. Se o primeiro nada altera o segundo identifica. A anoréxica neste segundo caso se identifica ao nada, ao sem sabor.  Uma paixão por regredir a um estado anterior a vida, que podemos interpretar como um estado anterior à palavra (LACAN, 1954-1955/1985).

Exploramos esse segundo nada com o objetivo de mostrarmos essa face de gozo presente na anorexia, e discutirmos brevemente acerca de algo fundamental que chamamos aqui de empuxo ao gozo.

O gozo e a precariedade do simbólico

O momento civilizatório é marcado por alguns elementos que são fundamentais para efetuarmos a leitura de nosso tempo. Assinalamos em primeiro lugar a precariedade do simbólico e em sequencia falamos do empuxo ao gozo. Em ambos os casos trata-se de uma marca que os chamados sintomas contemporâneos evidenciam.

Quando discorremos sobre os dois modos de “nada” ficou implícito que abordávamos a temática envolvendo o objeto a. cabe lembrar que Lacan discorre sobre ele em vários momentos de seu ensino, mas podemos trazê-lo aqui sob a rubrica de objeto causa de desejo e também como gozo, como aquele que não se deixa nomear.

Lacan (1969-1970/1992) chega a vislumbrar alguns efeitos relevantes no sujeito pelo advento de um discurso que alterou até então a forma de sujeito lidar com o Outro. Na verdade, não se trata mais nem mesmo em lidar com o Outro, uma vez que o discurso capitalista rompe fundamentalmente a relação do sujeito com o Outro. Trata-se de elevar o objeto ao zênite social conforme nos diz Miller (2005).

Miller (2005) também consente com essa afirmativa lacaniana, ao dizer que o objeto a passou a ser a bússola de nossa civilização. O resultado sobre o sujeito pela incidência do discurso capitalista é notável – uma acentuada relação com o objeto sem a mediação da palavra.

Nesse sentido vive-se o empuxo ao gozo, isto é, o sujeito ao imaginar que gozará do objeto passa a sofrer a incidência da sua ação, em outros termos, ele acaba sendo consumido pelo próprio objeto. O norte, a bússola que conduz o sujeito não mais é o Ideal, o pai, a pátria. O sujeito desbussolado (MILLER, 2005) não mais se porta em inclinação a um Ideal, mas antes ao objeto de gozo, um gozo autista e solitário.

Essa é uma face do mundo atual, que tece sintomas que se desligam de seu aspecto de demanda ao Outro. A face do sintoma contemporâneo não mais se enreda na metáfora, mas antes a uma inclinação mortífera ao gozo. Creio que esse é o aspecto que Recalcati (2001) tentou evidenciar na anorexia. Evidentemente o primeiro nada se faz através de uma ligação ao Outro, enquanto o segundo nada é uma recusa contundente a ele. No entanto, mesmo no primeiro nada, o que fica manifesto é a precarização da palavra frente ao objeto. O efeito de precarização do simbólico se faz sentir pela irrupção de um gozo feroz, que anula a palavra, e junto a ela, há a anulação do sujeito.

Essa é a face atual da clínica psicanalítica, seja em instituições ou clínica particular, o gozo se faz sentir em todos os âmbitos. Cabe, portanto, o analista rever sua práxis para que assim busque formas e maneiras de doar novamente ao sujeito um lugar de proeminência, um lugar de fala.

Referências

CUNHA, Cristiane de Freitas; LIMA, Nádia Laguárdia. Uma delicada transição: adolescência, anorexia e escrita. Revista Latinoamericana de psicopatologia fundamental. [online]. 2012, vol. 15, n4, PP. 798-811.

FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. (1896). In: FREUD, Sigmund. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago. 1996. v. 1, p. 267 – 331.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago. 1996. v. 18

LACAN, Jacques. (1954-1955). O seminário, livro2:o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.415p.

LACAN, Jacques. (1969-1970). O seminário: livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1992

MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia. Opção Lacaniana, n. 42, 2005, p. 7-18

RECALCATI, Massimo. Os dois ‘nada’ da anorexia. Correio: Revista  da Escola Brasileira de Psicanálise, 32, 26-36. São Paulo, 2001.

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