Thaís Rafael
A primeira parte do livro irá descrever a trajetória de Lacan. Este percurso será relatado por Jacques – Alain Miller, em uma conferência exibida na Universidade Central da Venezuela, especificamente na Escola de Psicologia.
Jacques Lacan nasceu em 1901 e trata-se de um personagem controverso diante de tanta genialidade. Controverso por não gostar de apresenta-se em rádios e tv’s, sempre discreto e modesto, apesar de tamanha inteligência.
Lacan tem em sua trajetória a marca de uma expulsão, foi expulso da IPA e com isso, fundou sua própria instituição, a Escola Freudiana de Paris em 1964.
Seus ensinos foram marcados por seminários e apresentações de artigos denominados Escritos. Primeiramente, seu ensino iniciou-se pela proposta de um retorno à Freud. Propôs-se a discorrer sobre o inconsciente e desenvolver a seguinte frase: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”. Segundo Miller, esta dedução de Lacan foi possível frente a diversas leituras da obra freudiana, que foram denominadas como uma atividade de deciframento. Ainda segundo o autor, Freud trabalha com diversos conceitos no qual fez com que Lacan chegasse ao conceito de linguagem. Exemplos disto, foram termos como condensação e deslocamento, metáfora e metomínia, travessias possíveis e de difíceis questionamentos.
Outra evidência, de acordo com Miller é que a própria Psicanálise opera o sintoma através da fala, da palavra. Miller se indaga de como pode a palavra atuar sobre o sintoma e especialmente sobre o sintoma neurótico? Como pode o artifício freudiano, ou seja, a associação livre e o dispositivo da cura analítica, afetar o real do sintoma?
Segundo Miller, Freud nunca disse que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, Lacan é quem introduz este axioma. Freud expôs a descoberta do inconsciente e suas agruras. Já Lacan, ao retomar a obra freudiana traçou um percurso ordenado sobre os ideais de Freud, pois este se preocupava em reabsorver a Psicanálise às ciências da natureza.
De acordo com o autor, a metapsicologia freudiana nunca foi mais do que uma análise da estrutura radical da linguagem, uma lógica do significante. Para Lacan há, sobretudo, uma teoria da prática analítica que se supõe ser a estrutura do inconsciente, ou seja, a análise forma parte do próprio conceito de inconsciente.
Lacan, em seu ato de escrever, mobiliza todos os recursos retóricos e homofônicos da língua. Sendo assim, Miller vem dizer ser muito difícil seguir o discurso Lacaniano, frente a todo um estilo próprio de Lacan em que ele se apóia. Quando Lacan faz uso de uma palavra, não se deve compreendê-la em seu uso habitual, pois para entendê-lo requer estudo. A obra lacaniana trata-se de uma teoria de sucessão, de continuidade, que se torna difícil de captar seus pormenores. O autor retoma, que ao mesmo tempo em que encontramos refinamentos, em sua teoria, encontramos também esquemas, formas e grafos que a constituem.
Pode-se dizer que a teoria lacaniana ainda não encontrou seu esgotamento, sempre há o que se discutir, mesmo esta tendo 30 anos de duração. Lacan data o começo do seu ensino, propriamente, apenas a partir de 1953. Localiza esse início a partir do texto “Função e campo da palavra e da linguagem em Psicanálise”. Antes disso, Lacan era um médico psiquiatra que escreveu vários artigos sobre sua prática clínica neste âmbito.
Depois de 1945, Lacan desenvolve a primeira teoria da Psicanálise, sobretudo, após a guerra. Ele fez do imaginário a dimensão própria da experiência analítica.
Em 1953, por causa do movimento psicanalítico francês, Lacan introduz a proposição “o inconsciente estruturado como uma linguagem” e a distinção do Real.
Miller neste texto traz uma nota muito importante, localiza as seguintes datas: Entre 1953 e 1963, o ensino lacaniano toma a forma de um seminário de textos freudianos. Cada ano dedicado a um conceito, uma ou duas obras de Freud. Neste período a dimensão essencial da experiência é a do simbólico.
Nos primeiros 10 anos de 1964-1974, aproveitando o segundo movimento psicanalítico, já não se discute diretamente os textos de Freud, mas são os próprios termos lacanianos a entrar em cena como, por exemplo, o sujeito barrado, o objeto a e o Outro A (maiúsculo).
Depois de 1974 entramos no terceiro período, no qual o autor distingue como o ensino de Lacan propriamente dito, tomando por objeto o próprio fundamento de seu discurso e a tripartição do Real, Simbólico e o Imaginário. E no último período o conceito sobre o Real tornou o mais essencial. O autor destaca todo o discurso de Lacan, como uma lógica irresistível e que a tripartição ocupou o 1º lugar.
Para Miller, de acordo com Lacan, o estádio do espelho resume-se no interesse lúdico da criança em dá mostras, entre os seis e os dezoitos meses, a sua imagem especular. A criança reconhece sua imagem e se interessa por ela. Para Lacan, este é um fator observável. Posteriormente, Lacan considerou que o essencial não era o estádio e sua observação, mas sim o interesse singular da criança, o desamparo na qual experimenta uma discordância intra-orgânica. Portanto, a imagem é a sua (imagem da criança), mas ao mesmo tempo é de um outro. A imagem captura a criança e esta se identifica com ela. Isso, segundo o próprio Miller, levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária é constitutiva do eu (mói).
A partir desse princípio, Lacan pensou na experiência cotidiana, no que diz respeito à agressividade do homem com relação ao seu semelhante, justamente por ser semelhante, por que é outro e sendo ao mesmo tempo ele mesmo sobre o modelo desta imagem. Isso também explica a relação paranóica do homem com seu objeto.
Miller retoma o conceito do eu (mói) e vem dizer que essa questão comprometia Lacan com uma via oposta à via anglo-saxônica da psicanálise. No mesmo período em que Lacan tratava o estádio do espelho, temos em Nova York e em Chicago ema teoria bem diferente, que propuseram reinterpretar Freud a partir de sua segunda tópica. Essa concepção tem tido grande triunfo até os dias atuais nos países ingleses e norte-americanos. A tópica freudiana que distingue o eu, supereu e o isso é uma teoria tardia e tais psicanalistas tomam o eu como instância central da personalidade.
Já Lacan, disse que a concepção do eu, ainda que esta idéia esteja em Freud, é originalmente um engano, pois está constitutivamente desintegrado. O eu, na concepção do estádio do espelho, não é um unificador e sim uma desordem de identificações imaginárias no que diz respeito à cura analítica. Segundo essa concepção tais identificações imaginárias reaparecem sucessivamente.
Miller cita que o eu é uma desordem e é assim que ele aparece no campo da psicanálise, já em outros campos é possível dar-lhe outros valores e é por isso que a psicanálise não é uma psicologia – é essa concepção não unificada, não unificante do eu.
Então, essa primeira parte da teoria lacaniana encontra uma dificuldade: A relação imaginária entre o eu e o outro é uma relação mortífera, uma relação na qual está o eu ou o outro. É ai, que Lacan em seu inicio teórico distingue o imaginário e o simbólico. Miller vem dizer, que o conceito de simbólico é uma noção bem elaborada e tem duas vertentes: Uma pela via da palavra e outra pela vertente da linguagem.
Sobre a vertente da palavra: Tem como função pacificadora, ou seja, identificações salvadoras que permitem superar a rivalidade imaginária. Portanto, a palavra adquire uma função de mediação entre os sujeitos.
Quanto ao sintoma, este é um defeito de simbolização. De acordo com o autor, o sintoma constitui um centro de opacidade no sujeito por que não foi verbalizado, não foi passado para via da palavra. A cura analítica, digamos assim, passa por essa via, uma “cura na simbolização”. Para Miller, a cura é um processo fundamentalmente intersubjetivo, no decorrer do qual o sujeito é levado a restabelecer a continuidade de sua história, interrompida pelo sintoma. A cura opera porque permite da significação retroativa ao que permaneceu opaco para o sujeito em sua experiência.
Sobre a vertente da Linguagem: sobre esta podemos dizer que Lacan recorreu a lingüística para complementar seus pensamentos. Segundo o autor, pode-se chamar de ordem simbólica como conjunto diacrítico de elementos discretos, separados. Valores que são adquiridos na relação uns com os outros, vem da lingüística estrutural de Saussure.
Sobre as duas vertentes, pode-se dizer que existe um problema particular. A primeira vertente é, sobretudo, da significação e a segunda vertente é da ordem do sem-sentido.
Podemos observar que Lacan passou da primeira vertente à segunda, buscando em Saussure um paralelo entre o significante e o significado, onde o primeiro atua sobre o segundo, no qual o significante cria o significado e é a partir do sem-sentido do significante que se engedra a significação.
Em outro plano, Lacan introduz o conceito de cadeia de significantes para dar conta da sobredeterminação na qual vê a condição de toda formação do inconsciente.
Lacan assinala que o automatismo de repetição, no sentido de Freud, veicula uma marca indelével e que o inconsciente está constituído por essa marca, da qual o sujeito não consegue desembaraçar-se. Em um terceiro momento, Lacan faz funcionar o simbólico, a estrutura íntegra, como um termo. A relação entre a estrutura simbólica e o sujeito, se distingue da relação imaginária do eu e o do outro. Por isso, de acordo com Miller, introduziu-se a escritura com Outro com maiúscula (A), que se diferencia do outro (minúsculo).
Sobre o Outro, pode-se dizer que este está relacionado ao grande Outro (A), da linguagem. Outro do discurso universal, de tudo que foi dito. É um Outro também ligado a verdade, esse Outro que é um terceiro em relação a todo o diálogo. O Outro de Lacan é também um Outro cujo inconsciente é o discurso , do desejo, do desejo do inconsciente. Miller vem dizer, que o que Lacan chama de Outro é uma dimensão de exterioridade que tem uma função determinante para o sujeito. O autor completa que ao se ler na obra freudiana o “Outro”, este possui várias significações variadas. Essa construção, portanto, implica que o inconsciente não resiste, ele repete. Ele gira como uma mensagem no computador, não deixa de girar e sempre diz a mesma coisa.
Miller indaga qual a função do psicanalista. Para que deve tê-lo preparado sua formação? O analista tem como função desaparecer enquanto eu (mói), não deve permitir que suas relações imaginárias domine a situação analítica. Na experiência analítica deve ocupar-se do lugar do grande Outro, apenas desse lugar tem a possibilidade de desfazer o sintoma. Lacan desenvolve várias outras hipóteses sobre a posição analítica, mas essa é valiosa, confirma o autor.
Ao citar o esquema desenvolvido por Lacan em seu livro, Miller ressalta que Lacan em um primeiro momento é estruturalista, em um segundo sentindo um estruturalista radical e num terceiro sentido de modo algum ele seria estruturalista. Isto por que a estrutura dos estruturalistas é uma estrutura completa e coerente, já a estrutura lacaniana é antinômica e incompleta. Lacan se ocupa da estrutura e do sujeito, questão inexistente para os estruturalistas de fato.
A estrutura lacaniana é uma estrutura que captura o ser vivente, particular, que fala. Isso cria uma diferença com todas as psicologias, tanto humana quanto animal. Não se pode observar a linguagem simplesmente como um meio de expressão. Sobre o significante, Miller diz que a estrutura significante, tem um efeito de desvitalização do corpo, mortifica-o. Em geral, segundo o autor, no homem, o significante substitui a necessidade, pois a demanda ao Outro tende a se converter em demanda pura da resposta do Outro e é ai que se coloca o amor, que vai além da satisfação da necessidade.
Para Lacan o princípio da identificação simbólica se dá a partir do significante da resposta do grande Outro, a primeira identificação do sujeito.
Por fim, Miller vem dizer que o desejo no sentido de Freud, este desejo do inconsciente é um desejo sempre particular de cada um. Não há satisfação para o desejo, o desejo está a tal ponto capturado no deslizamento da cadeia significante. Este desejo, portanto, não está destinado à plenitude, ele está coordenado, a uma função de falta e carência.
REFERÊNCIA:
MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988. p. 11 – 26.