Doagnóstico diferencial em psicanálise com crianças e adolescentes

Diante da dificuldade encontrada na clínica sobre como fazer o diagnóstico diferencial em psicanálise muitas vezes nos deparamos com grandes dúvidas: Como intervir quando a estrutura psíquica do paciente não é clara para nós? Estamos diante de uma psicose não desencadeada ou uma neurose grave? Seria um autismo ou uma psicose?

Márcia Rodrigues

Diante da dificuldade encontrada na clínica sobre como fazer o diagnóstico diferencial em psicanálise muitas vezes nos deparamos com grandes dúvidas: Como intervir quando a estrutura psíquica do paciente não é clara para nós? Estamos diante de uma psicose não desencadeada ou uma neurose grave? Seria um autismo ou uma psicose?

O objetivo deste trabalho é refletir sobre o diagnóstico diferencial em psicanálise e sua importância para a construção do projeto terapêutico e na direção do tratamento psicanalítico.

Faz-se necessário compreender a sua concepção em contraponto com o diagnóstico psiquiátrico, bem como atentar para as premissas básicas para a sua construção. Um diagnóstico equivocado pode levar a um tratamento inadequado cujo resultado é a resistência do quadro clínico e até mesmo seu agravamento (FINELLI; MENDONÇA, 2015).

Segundo Figueiredo e Machado (2000), as ciências empíricas tomam por base o fenômeno e a psicanálise não pode confiar exclusivamente no fenômeno para definir um diagnóstico. É fundamental o fazer falar, ou seja, proporcionar um lugar onde exista um que fale e o outro que escute. “Este é o ofício do psicanalista” (FIGUEIREDO; TENÓRIO, 2002 p. 35). Para se fazer um diagnóstico é “importante questionar como a linguagem se apresenta para cada sujeito: seja pelo delírio, pelas vozes, pela fantasia ou frase fundamental” (p. 79). Já os diagnósticos nosológicos e sindrômicos da psiquiatria são derivados de uma clínica com preponderância do olhar em detrimento da escuta. Onde a voz do paciente aparece mediante ao questionário de anamnese, que impede o seu comparecimento como um sujeito, testificando que o diagnóstico feito pela psiquiatria é uma agregação de sintomas (FIGUEIREDO; TENÓRIO, 2002).

Lacan, citado por Bernardino (2004) diz que o diagnóstico em psicanálise é feito a partir da transferência. Sendo que uma relação transferencial estabelecida implica na posição em que o paciente se coloca e na qual coloca o Outro. Este Outro é entendido não somente como um semelhante, mas também como uma estrutura de linguagem, cultura e leis (BERNARDINO, 2004). Figueiredo e Machado (2000) diz que “o psicanalista, operando através da transferência, não trabalha como um leitor de fenômenos e sim como nomeador de um modo de incidência do sujeito na linguagem” (p. 67).

Lacan no Seminário XI, diz que a transferência é a atualização da realidade do inconsciente. A realidade psíquica é pensada por Lacan no enlace de três dimensões: real, simbólico e imaginário, e se constitui gradativamente a partir das primeiras relações da criança com o seu semelhante, como resposta fundamental ao desejo (GARCEZ; PORTELA, 2019; VORCARO; CAPANEMA, 2010). Voltando-se aos conceitos Freudianos vale ressaltar o Complexo de Castração e o Complexo de Édipo como parte da constituição psíquica do sujeito.

Segundo Nazio (1997) a castração caracteriza uma experiência psíquica inconsciente vivenciada pela criança nos primeiros anos de vida. É fundante da identidade sexual pelo reconhecimento da diferença anatômica entre os sexos e perda da ilusão de onipotência que assegura que todos os seres humanos possuem um pênis. O encontro com esta limitação percebida no corpo reflete na vida psíquica com a angústia. A castração simbólica é o desfecho possível do Complexo de Édipo.

Partindo dos escritos de Freud, Ferrari, Piccinini e Lopes (2013), dizem que o Complexo de Édipo orienta o desejo, sendo primordial na constituição psíquica do ser humano e estruturado pelo Complexo de Castração.

“O Complexo de Édipo refere-se às relações que a criança estabelece com as figuras parentais, as quais serão as responsáveis pela constituição de uma rede de representações inconscientes e de afetos.” (p. 240).

Ferrari, Piccinini e Lopes (2013) trazem ainda as contribuições de Lacan (1957/1995; 1958/1999) a respeito da estruturação do Édipo em três tempos, quando, introduzindo o conceito de falo, que amplia a tese da castração freudiana.  No primeiro momento quando a criança nasce ela vai ocupar o lugar de falo imaginário da mãe, ou seja, ela vai ser o falo da mãe, em uma completude que leva a uma ilusão que não existe nenhuma falta. A mãe é absoluta e a lei é operada por ela sendo velada a função paterna.

O segundo tempo do Édipo é caracterizado por uma transição entre o primeiro e terceiro tempo. Neste momento a falta aparece evidenciando que não há completude na relação mãe/filho e que a mãe deseja algo além do filho. A partir do desejo da mãe direcionado para outra coisa que não é o filho é que a criança perde o lugar de ser o falo e pode passar a desejar algo também. A falta aparece juntamente com a entrada do pai na relação simbiótica entre mãe e filho. Ele aparece como castrador e como sendo a lei. A partir deste momento acontece o terceiro tempo do Édipo onde o pai deixa de ser a lei e passa a representar a lei e permite que o filho entre na cultura (FERRARI, PICCININI; LOPES, 2013).

Neste sentido, Lacan define três estruturas básicas, conforme Bernardino (2004) descreve,

[… ] a partir do referente da castração (apontada a partir da percepção da diferença sexual) e das respostas que o sujeito encontra, no campo da linguagem, para enfrentar a falta: a PSICOSE (cuja resposta é a foraclusão); a PERVERSAO (cuja resposta é o desmentido); e a NEUROSE (cuja resposta é o recalque). (BERNARDINO, 2004 p. 21)

Segundo Vorcaro e Capanema (2010), o intercruzamento entre as dimensões do real, simbólico e imaginário é um acontecimento constitutivo da estrutura de qualquer sujeito. No entanto, pode-se ocorrer certas falhas que levariam o sujeito a desenvolver manifestações psicopatológicas graves, como o autismo, psicose, fenômenos psicossomáticos e debilidade mental.

 Figueiredo e Machado (2000) relatam que a partir dos anos 70 Lacan começou a trabalhar o diagnóstico a partir dos modos de amarração dos 3 (três) registros no nó borromeano. “O Nome-do-Pai tem a função de ser um significante que amarra os 3 (três registros) – Real, Simbólico e Imaginário”.

Bernardino (2004), ressalta que é necessário que se faça a distinção entre as psicoses da criança e do adulto, e que segundo Lacan (1955-56) não é estrutural da mesma maneira (p.22). Para esta autora não é conveniente se apressar em fechar um diagnóstico de psicose na clínica com crianças e considera que a proposta terapêutica pela via da psicanálise pode proporcionar resultados favoráveis. “Percebe-se que a relação transferencial que ocorre entre a criança e o psicanalista, entre este e seus pais, no decorrer do tratamento, tem um papel fundamental na evolução do quadro clínico (BERNARDINO, 2004 p.37).

Diante deste breve exposto, conclui-se que o diagnóstico diferencial em psicanálise é feito sob transferência, buscando atentar-se para o que é dito pelo sujeito e pelo lugar que este se coloca e coloca o Outro. O fenômeno não é descartado, porém não pode ser colocado no centro do tratamento como orientador das intervenções feitas pelo psicanalista. Como repetidamente disse a professora Tânia nas aulas “deve-se sempre interrogar e suspender as evidências”. Portanto, o diagnóstico diferencial tem um papel central na clínica psicanalítica, referenciando a ética e o estatuto do desejo. Diz respeito ao cuidado do psicanalista em permanecer na condição de não saber, assegurando o lugar de suposto saber para que seja possível ao paciente construir um novo saber vindo do inconsciente. 

Referências

BERARDINO, Leda Mariza Fischer. As psicoses Não-decididas da infância: um estudo psicanalítico. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2004. — (Coleção 1• infância I dirigida por Claudia Mascarenhas Fernandes)

FERRARI, Andrea Gabriela; PICCININI, Cesar Augusto; LOPES, Rita de Cássia Sobreira. Atualização do Complexo de Édipo na relação com o bebê: evidências a partir de um estudo de caso. Estudos de psicologia, Campinas, p. 239-248, abr.-jun. 2013.

FIGUEIREDO, Ana Cristina; TENÓRIO, Fernando. O diagnóstico em psiquiatria e psicanálise. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 1, p.  29-43

FIGUEIREDO, Ana Cristina; MACHADO, Ondina Maria Rodrigues. O diagnóstico em psicanálise: do fenômeno a estrutura. Ágora v. III n. 2 jul/dez 2000 p. 65-86

FINELLI, Leonardo Augusto Couto; MENDONÇA, Angélica Silveira Martins. Diagnóstico clínico x diagnóstico em psicanálise: a importância da escuta na construção do diagnóstico diferencial. Revista Bionorte, v. 4, n. 1, fev. 2015.

GARCEZ, Nathaly Lamas; PORTELA, Marcos Vinícius Zoreck. Diagnóstico diferencial na clínica psicanalítica entre sintoma e sintoma psicossomático. Revista SBPH, vol.22 n.2. São Paulo, jul./dez. 2019

NAZIO, J.-D. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, 200p.

VORCARO, Ângela Maria Resende; CAPANEMA, Carla Almeida. Desastre e Acontecimento na realidade psíquica. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 490-504, dez. 2010.

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