Resumo do primeiro capítulo do livro “As 4+1 condições de análise”
Thaís Rafael
O texto do Quinet vem tratar primeiramente do que Freud nomeou de tratamento de ensaio. Tratamento este de uma ou mais semanas antes do início da análise propriamente dita, no qual o prosseguimento do tratamento está absolutamente ligada a transferência.
Segundo o autor, a expressão “entrevistas preliminares” em Lacan está relacionada ao tratamento de ensaio em Freud. Esse conceito indica que há uma porta de entrada em relação à análise. Trata-se de um tempo de trabalho prévio. O nome “preliminar” indica um corte que deve ser feito para que o sujeito entre em análise propriamente dita. Deve-se atravessar o umbral dos preliminares para entrar no discurso analítico. Contudo, é bom lembrarmos de que: “Não há entrada em análise sem as entrevistas preliminares”.
Ademais, tanto nas entrevistas preliminares ou na própria análise o que está em jogo é a associação livre. Esse momento inicial deve obedecer também às regras de uma análise.
As entrevistas preliminares possuem a mesma estrutura da análise, mas são distintas desta. Podemos então escrever esse paradoxo assim:
EP = A ↔ EP # A
As entrevistas preliminares são iguais à análise, implicando que entrevistas preliminares são diferentes da análise. No ponto de vista do analista, as entrevistas preliminares podem ser divididas em dois tempos: um tempo de compreender e um tempo de concluir, no qual toma sua decisão. É nessa conclusão que se faz surgir o ato psicanalítico no qual o analista assume seu papel, transformando esse passo inicial em análise propriamente dita.
Quinet vem dizer que existem três funções para as entrevistas preliminares: Primeiramente a função sintomal (sinto-mal), no qual o sujeito irá trazer a demanda, irá dizer de si. Essa demanda não deve ser aceita em estado bruto, mas deve ser questionada. Para Lacan, segundo o autor, só há uma demanda verdadeira para se dar início a uma análise: a demanda de desvencilhar de um sintoma. A demanda de análise é correlata à elaboração do sintoma enquanto “sintoma analítico”. É preciso que a queixa se transforme numa demanda endereçada ao analista, para que este seja decifrado.
É importante que o sintoma, que é um significado para o sujeito, readquira sua dimensão de significante, implicando o sujeito e o desejo. O desejo, portanto, é uma questão que cabe ao analista introduzir nessa dimensão sintomal. Esse momento em que o sintoma é transformado em um enigma é também um momento de histerização, já que o sintoma representa a divisão do sujeito.
Segundo o autor, é de suma importância que o sujeito dirija-se ao analista com a seguinte questão: O que isto quer dizer? O que significa isto? Tal posição inclui um saber, pois supõe que o analista detém a verdade de seu sintoma.
A segunda função, nomeada como função diagnóstica, será relevante para o diagnóstico da estrutura clínica. O diagnóstico só tem sentido se servir de orientação para a condução da análise. Ademais, o diagnóstico só pode ser buscado no registro do simbólico, onde são articuladas as questões fundamentais do sujeito. Sendo elas, sobre o sexo, a morte, a procriação, a paternidade e sobre o complexo de Édipo e a inscrição do Nome- do- Pai no Outro da linguagem. É através do simbólico que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural, correspondentes às três estruturas clínicas.
| Estrutura Clínica | Forma de Negação | Local de Retorno | Fenômeno |
| Neurose | Recalque | Simbólico | Sintoma |
| Perversão | Desmentido | Simbólico | Fetiche |
| Psicose | Foraclusão | Real | Alucinação |
Sobre o quadro acima, o autor vem dizer que, a respeito das estruturas clínicas cada modo de negação é concomitante a um tipo de retorno do que é negado. No recalque, por exemplo, o que é negado no simbólico retorna no próprio simbólico sob a forma de sintoma, ou seja, o sintoma neurótico.
No desmentido, o que é negado retorna no simbólico, mas como forma de fetiche do perverso. Na psicose, o que é negado no simbólico retorna no real sob forma de alucinação.
O que é importante de ressaltar no caso da psicose é que a resposta para a promessa de cura por parte do psicanalista não pode perpassar pela inserção deste psicótico na forma fálica. A foraclusão do Nome – do – Pai exclui o sujeito da norma fálica, riscando qualquer esperança do analista de fazê-lo bascular para o lado da neurose. Portanto, não se pode tornar um neurótico um psicótico.
Quinet, em seu texto, vai abordar a questão da contra – indicação da Psicanálise para os psicóticos, do manejo que deve ter um analista, afinal, de aceitarmos um pré-psicótico em análise já sabemos o resultado – psicótico. A análise, como lugar da tomada da palavra, pode desencadear uma psicose até então não declarada.
O autor complementa sua idéia dizendo que o importante nas entrevistas preliminares a ultrapassagem do plano das estruturas clínicas para se chegar ao plano dos tipos clínicos como, histeria e obsessão, para que assim, possa estabelecer a estratégia da direção da análise.
Para o obsessivo, o Outro goza, ou seja, esse Outro é patente no personagem do Pai da horda primitiva, trata-se de um Outro que impede seu acesso ao sujeito. É nesse lugar de Outro que ele se instala, marcando seu desejo pela impossibilidade. Na fantasia do obsessivo a marca do impossível desvanece do sujeito para escapar do Outro.
Ao situar esse Outro como mestre e senhor o obsessivo ocupa o lugar de escravo, no qual trabalha e se esforça na tentativa de enganar seu senhor, mas engana a si próprio acreditando que este método lhe dará acesso ao Gozo.
Quinet vem dizer que na clínica do obsessivo encontramos dois significantes o pai e a morte, denotando a articulação da lei com o assassinato do pai na constituição da dívida simbólica.
Por sua vez, na histeria o Outro é o Outro do desejo, marcado pela falta e pela impotência em alcançar o gozo. A histérica confere ao Outro o lugar de domínio na cena de sedução de sua fantasia. Isso aparece na clínica como uma reivindicação ao Outro, que diferente do obsessivo, não deve nada e sim o Outro que lhe deve.
A histérica não ocupa o lugar de escravidão, apesar de estar sempre à procura de um mestre. Inventa um senhor, não para ser submissa, mas sim para reinar apontando as falhas de sua dominação e mestria.
E, por fim, a função transferencial, responsável pelo sujeito – suposto – saber, importantíssimo para o desenrolar da análise propriamente dita. Sobre este conceito Quinet relata que, a transferência não é uma função do analista, ma sim do analisando e cabe a este analista manejá-la.
A posição do analista não é a de saber e nem de compreensão, mas ele deve estar ciente que a comunicação é baseada no mal-entendido. Sua posição deve ser uma posição de ignorância e não de saber.
Quinet aponta que o estabelecimento da transferência no registro do saber através de sua posição é correlato à delegação àquele que é seu alvo de um bem precioso que causa o desejo. O analista, portanto, ficará num primeiro momento no lugar de “sujeito suposto saber” ligado ao imaginário daquele que o procura.
Por fim, o autor vem falar da retificação subjetiva. Essa retificação subjetiva constitui na transição, na passagem que o sujeito analisando faz em deixar de queixar-se dos outros e queixar-se de si, voltar às questões que o acarretam para si mesmo. Para isso, são de suma importância as pontuações do analista para que o sujeito a sua frente se responsabilize pelo que diz, implicar esse sujeito em suas queixas, afinal, as pontuações serão direcionadas ao inconsciente do analisando.
No neurótico obsessivo, a retificação se situa no plano da retificação da causalidade, que se apresenta como conseqüência: sua impossibilidade de agir que é correlata a sua modalidade de sustentação do desejo como impossível.
Já na histeria, a retificação subjetiva visa à implicação do sujeito em sua reivindicação dirigida ao Outro, deixando o lugar de vitima e sacrificada para a de agente da intriga da qual se queixa, e que sustenta seu desejo na insatisfação.
Portanto, a retificação subjetiva trata-se de introduzir o sujeito em sua responsabilidade na escolha de sua neurose, pois a retificação aponta para a escolha do sujeito, pois mesmo onde ele não pensa, ele escolhe.
REFERÊNCIA:
QUINET, Antônio. As 4 + 1 condições de análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. 9.ed. p. 13 – 34.