Doagnóstico diferencial em psicanálise com crianças e adolescentes

Diante da dificuldade encontrada na clínica sobre como fazer o diagnóstico diferencial em psicanálise muitas vezes nos deparamos com grandes dúvidas: Como intervir quando a estrutura psíquica do paciente não é clara para nós? Estamos diante de uma psicose não desencadeada ou uma neurose grave? Seria um autismo ou uma psicose?

Márcia Rodrigues

Diante da dificuldade encontrada na clínica sobre como fazer o diagnóstico diferencial em psicanálise muitas vezes nos deparamos com grandes dúvidas: Como intervir quando a estrutura psíquica do paciente não é clara para nós? Estamos diante de uma psicose não desencadeada ou uma neurose grave? Seria um autismo ou uma psicose?

O objetivo deste trabalho é refletir sobre o diagnóstico diferencial em psicanálise e sua importância para a construção do projeto terapêutico e na direção do tratamento psicanalítico.

Faz-se necessário compreender a sua concepção em contraponto com o diagnóstico psiquiátrico, bem como atentar para as premissas básicas para a sua construção. Um diagnóstico equivocado pode levar a um tratamento inadequado cujo resultado é a resistência do quadro clínico e até mesmo seu agravamento (FINELLI; MENDONÇA, 2015).

Segundo Figueiredo e Machado (2000), as ciências empíricas tomam por base o fenômeno e a psicanálise não pode confiar exclusivamente no fenômeno para definir um diagnóstico. É fundamental o fazer falar, ou seja, proporcionar um lugar onde exista um que fale e o outro que escute. “Este é o ofício do psicanalista” (FIGUEIREDO; TENÓRIO, 2002 p. 35). Para se fazer um diagnóstico é “importante questionar como a linguagem se apresenta para cada sujeito: seja pelo delírio, pelas vozes, pela fantasia ou frase fundamental” (p. 79). Já os diagnósticos nosológicos e sindrômicos da psiquiatria são derivados de uma clínica com preponderância do olhar em detrimento da escuta. Onde a voz do paciente aparece mediante ao questionário de anamnese, que impede o seu comparecimento como um sujeito, testificando que o diagnóstico feito pela psiquiatria é uma agregação de sintomas (FIGUEIREDO; TENÓRIO, 2002).

Lacan, citado por Bernardino (2004) diz que o diagnóstico em psicanálise é feito a partir da transferência. Sendo que uma relação transferencial estabelecida implica na posição em que o paciente se coloca e na qual coloca o Outro. Este Outro é entendido não somente como um semelhante, mas também como uma estrutura de linguagem, cultura e leis (BERNARDINO, 2004). Figueiredo e Machado (2000) diz que “o psicanalista, operando através da transferência, não trabalha como um leitor de fenômenos e sim como nomeador de um modo de incidência do sujeito na linguagem” (p. 67).

Lacan no Seminário XI, diz que a transferência é a atualização da realidade do inconsciente. A realidade psíquica é pensada por Lacan no enlace de três dimensões: real, simbólico e imaginário, e se constitui gradativamente a partir das primeiras relações da criança com o seu semelhante, como resposta fundamental ao desejo (GARCEZ; PORTELA, 2019; VORCARO; CAPANEMA, 2010). Voltando-se aos conceitos Freudianos vale ressaltar o Complexo de Castração e o Complexo de Édipo como parte da constituição psíquica do sujeito.

Segundo Nazio (1997) a castração caracteriza uma experiência psíquica inconsciente vivenciada pela criança nos primeiros anos de vida. É fundante da identidade sexual pelo reconhecimento da diferença anatômica entre os sexos e perda da ilusão de onipotência que assegura que todos os seres humanos possuem um pênis. O encontro com esta limitação percebida no corpo reflete na vida psíquica com a angústia. A castração simbólica é o desfecho possível do Complexo de Édipo.

Partindo dos escritos de Freud, Ferrari, Piccinini e Lopes (2013), dizem que o Complexo de Édipo orienta o desejo, sendo primordial na constituição psíquica do ser humano e estruturado pelo Complexo de Castração.

“O Complexo de Édipo refere-se às relações que a criança estabelece com as figuras parentais, as quais serão as responsáveis pela constituição de uma rede de representações inconscientes e de afetos.” (p. 240).

Ferrari, Piccinini e Lopes (2013) trazem ainda as contribuições de Lacan (1957/1995; 1958/1999) a respeito da estruturação do Édipo em três tempos, quando, introduzindo o conceito de falo, que amplia a tese da castração freudiana.  No primeiro momento quando a criança nasce ela vai ocupar o lugar de falo imaginário da mãe, ou seja, ela vai ser o falo da mãe, em uma completude que leva a uma ilusão que não existe nenhuma falta. A mãe é absoluta e a lei é operada por ela sendo velada a função paterna.

O segundo tempo do Édipo é caracterizado por uma transição entre o primeiro e terceiro tempo. Neste momento a falta aparece evidenciando que não há completude na relação mãe/filho e que a mãe deseja algo além do filho. A partir do desejo da mãe direcionado para outra coisa que não é o filho é que a criança perde o lugar de ser o falo e pode passar a desejar algo também. A falta aparece juntamente com a entrada do pai na relação simbiótica entre mãe e filho. Ele aparece como castrador e como sendo a lei. A partir deste momento acontece o terceiro tempo do Édipo onde o pai deixa de ser a lei e passa a representar a lei e permite que o filho entre na cultura (FERRARI, PICCININI; LOPES, 2013).

Neste sentido, Lacan define três estruturas básicas, conforme Bernardino (2004) descreve,

[… ] a partir do referente da castração (apontada a partir da percepção da diferença sexual) e das respostas que o sujeito encontra, no campo da linguagem, para enfrentar a falta: a PSICOSE (cuja resposta é a foraclusão); a PERVERSAO (cuja resposta é o desmentido); e a NEUROSE (cuja resposta é o recalque). (BERNARDINO, 2004 p. 21)

Segundo Vorcaro e Capanema (2010), o intercruzamento entre as dimensões do real, simbólico e imaginário é um acontecimento constitutivo da estrutura de qualquer sujeito. No entanto, pode-se ocorrer certas falhas que levariam o sujeito a desenvolver manifestações psicopatológicas graves, como o autismo, psicose, fenômenos psicossomáticos e debilidade mental.

 Figueiredo e Machado (2000) relatam que a partir dos anos 70 Lacan começou a trabalhar o diagnóstico a partir dos modos de amarração dos 3 (três) registros no nó borromeano. “O Nome-do-Pai tem a função de ser um significante que amarra os 3 (três registros) – Real, Simbólico e Imaginário”.

Bernardino (2004), ressalta que é necessário que se faça a distinção entre as psicoses da criança e do adulto, e que segundo Lacan (1955-56) não é estrutural da mesma maneira (p.22). Para esta autora não é conveniente se apressar em fechar um diagnóstico de psicose na clínica com crianças e considera que a proposta terapêutica pela via da psicanálise pode proporcionar resultados favoráveis. “Percebe-se que a relação transferencial que ocorre entre a criança e o psicanalista, entre este e seus pais, no decorrer do tratamento, tem um papel fundamental na evolução do quadro clínico (BERNARDINO, 2004 p.37).

Diante deste breve exposto, conclui-se que o diagnóstico diferencial em psicanálise é feito sob transferência, buscando atentar-se para o que é dito pelo sujeito e pelo lugar que este se coloca e coloca o Outro. O fenômeno não é descartado, porém não pode ser colocado no centro do tratamento como orientador das intervenções feitas pelo psicanalista. Como repetidamente disse a professora Tânia nas aulas “deve-se sempre interrogar e suspender as evidências”. Portanto, o diagnóstico diferencial tem um papel central na clínica psicanalítica, referenciando a ética e o estatuto do desejo. Diz respeito ao cuidado do psicanalista em permanecer na condição de não saber, assegurando o lugar de suposto saber para que seja possível ao paciente construir um novo saber vindo do inconsciente. 

Referências

BERARDINO, Leda Mariza Fischer. As psicoses Não-decididas da infância: um estudo psicanalítico. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2004. — (Coleção 1• infância I dirigida por Claudia Mascarenhas Fernandes)

FERRARI, Andrea Gabriela; PICCININI, Cesar Augusto; LOPES, Rita de Cássia Sobreira. Atualização do Complexo de Édipo na relação com o bebê: evidências a partir de um estudo de caso. Estudos de psicologia, Campinas, p. 239-248, abr.-jun. 2013.

FIGUEIREDO, Ana Cristina; TENÓRIO, Fernando. O diagnóstico em psiquiatria e psicanálise. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 1, p.  29-43

FIGUEIREDO, Ana Cristina; MACHADO, Ondina Maria Rodrigues. O diagnóstico em psicanálise: do fenômeno a estrutura. Ágora v. III n. 2 jul/dez 2000 p. 65-86

FINELLI, Leonardo Augusto Couto; MENDONÇA, Angélica Silveira Martins. Diagnóstico clínico x diagnóstico em psicanálise: a importância da escuta na construção do diagnóstico diferencial. Revista Bionorte, v. 4, n. 1, fev. 2015.

GARCEZ, Nathaly Lamas; PORTELA, Marcos Vinícius Zoreck. Diagnóstico diferencial na clínica psicanalítica entre sintoma e sintoma psicossomático. Revista SBPH, vol.22 n.2. São Paulo, jul./dez. 2019

NAZIO, J.-D. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, 200p.

VORCARO, Ângela Maria Resende; CAPANEMA, Carla Almeida. Desastre e Acontecimento na realidade psíquica. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 490-504, dez. 2010.

Os dois “nada” da anorexia

Ao nos debruçarmos sobre a prática psicanalítica na atualidade, ou melhor, ao vislumbrarmos as “novas” formações sintomáticas que se achegam a clínica, isto é, sobre algum ponto da contemporaneidade, logo surge como ponto de observação um tema recorrente nas produções acadêmicas e nos programas de pós-graduação, como é o caso da disciplina “O campo do consumo e gozo”, a saber, a anorexia.

Thaís Rafael

Ao nos debruçarmos sobre a prática psicanalítica na atualidade, ou melhor, ao vislumbrarmos as “novas” formações sintomáticas que se achegam a clínica, isto é, sobre algum ponto da contemporaneidade, logo surge como ponto de observação um tema recorrente nas produções acadêmicas e nos programas de pós-graduação, como é o caso da disciplina “O campo do consumo e gozo”, a saber, a anorexia. Tal tema, desperta certa curiosidade uma vez que esta modalidade de sintoma se faz cada vez mais presente em nossa sociedade, podendo revelar-se como produto de nossa era civilizatória.

Portanto, é na tentativa de melhor compreender as modalidades sintomáticas que afligem o sujeito contemporâneo que a temática em torno da anorexia ganha seu relevo. Frente a esse périplo alguns autores podem trazer luz à nossa pesquisa, e entre alguns nomes está Recalcati (2001), principalmente em seu texto: “Os dois “nada” da anorexia.

Segundo este autor, a porta de entrada para se refletir sobre a questão da anorexia é o nada. Isso implica pensar também que a anorexia perpassa pelo culto ao nada, principalmente quando as anoréxicas dizem: “gosto de nada, como nada”. Dessa maneira Recalcati (2001) irá extrair elementos precisos sobre os dados clínicos recolhidos, e o primeiro deles refere-se ao uso do termo anorexia no singular.

Tal assertiva corrobora com a ideia de que não existe uma categoria única de anorexia, ou seja, ela não é uma estrutura clínica, e devemos nos arguir sobre a utilização do termo no singular, uma vez que podemos pensar que sua manifestação é composta por várias formas e modalidades.

Portanto, não se trata de uma estrutura clínica, não obstante, é de fácil identificação, na medida em que a paciente já prontamente se identifica ao sintoma em jogo. Isso é um primeiro alerta que repercute a ideia de não nos deixarmos guiar pela tentação e atribuir a anorexia uma noção categoria clínica, antes, devemos pensar no aspecto singular apresentado por cada paciente. (RECALCATI, 2001).

De posse dessa primeira elaboração devemos entender de que “nada” se trata. Neste mesmo texto o autor irá trabalhar com dois modos distintos da presença “dos nadas” e com isso diferenciar as nuances da anorexia.

Primeiro nada e o simbólico

O primeiro nada irá corresponder há um objeto separador, diante de um Outro excessivo, seja no cuidado extremo e asfixiante, ou na falta de cuidado excessiva, ou seja, dois excessos. Quando a anoréxica recusa-se a alimentar-se, essa é uma posição que tem uma função, um endereçamento, ou seja, é uma maneira de barrar o Outro, de colocar a falta no Outro. E um ponto interessante se situa aqui: a anorexia costuma ter sua gênese na adolescência, e privilegia consideravelmente as mulheres.

Segundo Recalcati (2001) a adolescência é marcada como um ponto crucial da vida humana, e aqui a anorexia pode encontrar um estatuto fundamental; ela pode surgir como ponto de saída para os conflitos que ali se presentificam. Em suma, como ponto de saída frente às revivências dos conflitos edípicos marcados pela dimensão do trauma. Podemos inclusive recordar que Freud (1896/1996) encontrou seus primeiros elementos teóricos privilegiando a entrada traumática da mulher na adolescência, isso devido ao retorno de um evento excessivo da lembrança de uma atividade pulsional infantil.

Dito isso, pode-se afirmar que a adolescência envolve um instante de fragilidade, tanto das identificações imaginárias quanto simbólicas, e um constante imposição do real (CUNHA, 2012). A anorexia pode ser uma resposta frente ao dilema da adolescência, e nesse sentido também revela que existe uma dificuldade de simbolização.

Do tempo da impotência infantil frente ao Outro que lhe parece onipotente, até a adolescência como momento de separação, como recusa a esse Outro, pode haver desventuras, principalmente quando o Outro é asfixiante. De qualquer maneira para que surja o desejo, é preciso haver uma separação. (RECALCATI, 2001)

O sintoma anoréxico pode vir aqui, como objeto separador frente a um Outro asfixiante. O Outro da anoréxica é considerado por ela, pensando o primeiro paradigma do nada, como aquele que responde pela ordem da necessidade e que peca ao se furtar do dom do amor. A anorexia entra aqui, como uma maneira de chamar a atenção do Outro, de barrá-lo em suas respostas pela via da necessidade, e convocar seu amor.

Por isso, chama-se pseudo-separação, uma falsa separação do Outro, pois se busca algo do Outro, não há uma separação factual do Outro, uma vez que ela se liga a ele através da demanda de amor. Em alguns casos vomitar é uma recusa ao Outro, ao mesmo tempo em que se demanda algo dele; existe uma recusa do Outro, entretanto, é uma recusa com característica de apelo.

Este primeiro nada não é da ordem da necessidade e sim uma modalidade de defesa do desejo em busca de um lugar de amor, é nesta mesma perspectiva que faz emergir a falta no Outro. Podemos dizer também que a anoréxica, em sua presença corporal, marcada por um a debilidade e fragilidade devido a magreza, é uma forma de fazer-se invisível para ser vista e assim fazer valer seu desejo.

Portanto, o primeiro nada é uma defesa do desejo e uma demanda para além do objeto. É um apelo ao Outro, um apelo ao amor. Contudo de uma maneira precária que possui uma devastação para o corpo. Ora, podemos marcar aqui este dado clínico contemporâneo, que é justamente a fragilidade do eixo simbólico e da palavra, isto é, uma manifestação da precariedade do simbólico na atualidade. Vejamos o segundo nada e como ele se relaciona a esse momento civilizatório.

Segundo nada: efeito eclipse e o gozo

O segundo nada, segundo Recalcati (2001), há uma forma ainda mais mortífera de sua presença. Aqui a anoréxica some, se anula. Da mesma forma com que um eclipse no qual o sol some em seu encontro com a lua, existe um eclipse total da demanda no caso da anorexia. Trata-se aqui de uma dimensão psicótica.

O segundo nada não se apresenta como objeto separador e protetor do desejo. O sujeito aqui não pede nada ao Outro, ele não tem uma demanda a ele uma vez que está separado da demanda, existindo então, uma anulação do sujeito.

O segundo nada se remete a relação com o gozo e não com o desejo como é descrito no primeiro nada. Há toda uma atmosfera de uma ruptura radical ao campo do Outro e, por conseguinte, ao campo da palavra. Pode-se dizer que aquilo que Freud (1920/1996) elucubrou por nome de pulsão de morte, como uma inclinação pulsional ao retorno ao inanimado, se presentifica no segundo nada anoréxico. É um puro “desejo” de retornar ao nível zero de excitação.

Recalcati (2001) vai lembrar acertadamente o princípio do Nirvana que está ligada diretamente à pulsão de morte. Existe uma “nirvanização do sujeito”, que significa uma descarga que corresponde a uma pulsão no qual não se tem palavra só se tem gozo. Só se tem morte. Ora, é a pulsão de vida que proporciona a ligação do sujeito ao “mundo externo”, ou seja, ao campo do Outro, e assistimos no segundo nada a defusão dos instintos de morte que incidem sobre o sujeito em um retorno feroz com vistas ao gozo.

A pulsão de morte, como afirmado, visa o retorno ao estado nível zero de excitação. Já a pulsão de vida, perpassando aqui as pulsões sexuais e de auto-conservação visariam também esse objetivo, contudo, de maneira controlada e adiada. Os princípios de prazer e realidade estão a serviço da vida, no entanto marcando um conflito e uma divisão inerente ao sujeito. O que há de mais problemático no segundo nada é sua tendência a nivanização que abole a divisão, acentuando um empuxo ao gozo.

Portanto, neste segundo nada existe uma solidificação do sujeito a serviço da pulsão de morte, uma tendência ao zero, ou seja, uma descarga total da energia pulsional. Existe ai, uma paixão pela anulação. Se o primeiro nada altera o segundo identifica. A anoréxica neste segundo caso se identifica ao nada, ao sem sabor.  Uma paixão por regredir a um estado anterior a vida, que podemos interpretar como um estado anterior à palavra (LACAN, 1954-1955/1985).

Exploramos esse segundo nada com o objetivo de mostrarmos essa face de gozo presente na anorexia, e discutirmos brevemente acerca de algo fundamental que chamamos aqui de empuxo ao gozo.

O gozo e a precariedade do simbólico

O momento civilizatório é marcado por alguns elementos que são fundamentais para efetuarmos a leitura de nosso tempo. Assinalamos em primeiro lugar a precariedade do simbólico e em sequencia falamos do empuxo ao gozo. Em ambos os casos trata-se de uma marca que os chamados sintomas contemporâneos evidenciam.

Quando discorremos sobre os dois modos de “nada” ficou implícito que abordávamos a temática envolvendo o objeto a. cabe lembrar que Lacan discorre sobre ele em vários momentos de seu ensino, mas podemos trazê-lo aqui sob a rubrica de objeto causa de desejo e também como gozo, como aquele que não se deixa nomear.

Lacan (1969-1970/1992) chega a vislumbrar alguns efeitos relevantes no sujeito pelo advento de um discurso que alterou até então a forma de sujeito lidar com o Outro. Na verdade, não se trata mais nem mesmo em lidar com o Outro, uma vez que o discurso capitalista rompe fundamentalmente a relação do sujeito com o Outro. Trata-se de elevar o objeto ao zênite social conforme nos diz Miller (2005).

Miller (2005) também consente com essa afirmativa lacaniana, ao dizer que o objeto a passou a ser a bússola de nossa civilização. O resultado sobre o sujeito pela incidência do discurso capitalista é notável – uma acentuada relação com o objeto sem a mediação da palavra.

Nesse sentido vive-se o empuxo ao gozo, isto é, o sujeito ao imaginar que gozará do objeto passa a sofrer a incidência da sua ação, em outros termos, ele acaba sendo consumido pelo próprio objeto. O norte, a bússola que conduz o sujeito não mais é o Ideal, o pai, a pátria. O sujeito desbussolado (MILLER, 2005) não mais se porta em inclinação a um Ideal, mas antes ao objeto de gozo, um gozo autista e solitário.

Essa é uma face do mundo atual, que tece sintomas que se desligam de seu aspecto de demanda ao Outro. A face do sintoma contemporâneo não mais se enreda na metáfora, mas antes a uma inclinação mortífera ao gozo. Creio que esse é o aspecto que Recalcati (2001) tentou evidenciar na anorexia. Evidentemente o primeiro nada se faz através de uma ligação ao Outro, enquanto o segundo nada é uma recusa contundente a ele. No entanto, mesmo no primeiro nada, o que fica manifesto é a precarização da palavra frente ao objeto. O efeito de precarização do simbólico se faz sentir pela irrupção de um gozo feroz, que anula a palavra, e junto a ela, há a anulação do sujeito.

Essa é a face atual da clínica psicanalítica, seja em instituições ou clínica particular, o gozo se faz sentir em todos os âmbitos. Cabe, portanto, o analista rever sua práxis para que assim busque formas e maneiras de doar novamente ao sujeito um lugar de proeminência, um lugar de fala.

Referências

CUNHA, Cristiane de Freitas; LIMA, Nádia Laguárdia. Uma delicada transição: adolescência, anorexia e escrita. Revista Latinoamericana de psicopatologia fundamental. [online]. 2012, vol. 15, n4, PP. 798-811.

FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. (1896). In: FREUD, Sigmund. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago. 1996. v. 1, p. 267 – 331.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago. 1996. v. 18

LACAN, Jacques. (1954-1955). O seminário, livro2:o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.415p.

LACAN, Jacques. (1969-1970). O seminário: livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1992

MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia. Opção Lacaniana, n. 42, 2005, p. 7-18

RECALCATI, Massimo. Os dois ‘nada’ da anorexia. Correio: Revista  da Escola Brasileira de Psicanálise, 32, 26-36. São Paulo, 2001.

Resumo da primeira parte do livro “Percurso de Lacan – uma introdução”.

A primeira parte do livro irá descrever a trajetória de Lacan. Este percurso será relatado por Jacques – Alain Miller, em uma conferência exibida na Universidade Central da Venezuela, especificamente na Escola de Psicologia.

Thaís Rafael

A primeira parte do livro irá descrever a trajetória de Lacan. Este percurso será relatado por Jacques – Alain Miller, em uma conferência exibida na Universidade Central da Venezuela, especificamente na Escola de Psicologia.

Jacques Lacan nasceu em 1901 e trata-se de um personagem controverso diante de tanta genialidade. Controverso por não gostar de apresenta-se em rádios e tv’s, sempre discreto e modesto, apesar de tamanha inteligência.

Lacan tem em sua trajetória a marca de uma expulsão, foi expulso da IPA e com isso, fundou sua própria instituição, a Escola Freudiana de Paris em 1964.

Seus ensinos foram marcados por seminários e apresentações de artigos denominados Escritos. Primeiramente, seu ensino iniciou-se pela proposta de um retorno à Freud. Propôs-se a discorrer sobre o inconsciente e desenvolver a seguinte frase: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”. Segundo Miller, esta dedução de Lacan foi possível frente a diversas leituras da obra freudiana, que foram denominadas como uma atividade de deciframento. Ainda segundo o autor, Freud trabalha com diversos conceitos no qual fez com que Lacan chegasse ao conceito de linguagem. Exemplos disto, foram termos como condensação e deslocamento, metáfora e metomínia, travessias possíveis e de difíceis questionamentos.

Outra evidência, de acordo com Miller é que a própria Psicanálise opera o sintoma através da fala, da palavra. Miller se indaga de como pode a palavra atuar sobre o sintoma e especialmente sobre o sintoma neurótico? Como pode o artifício freudiano, ou seja, a associação livre e o dispositivo da cura analítica, afetar o real do sintoma?

Segundo Miller, Freud nunca disse que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, Lacan é quem introduz este axioma. Freud expôs a descoberta do inconsciente e suas agruras. Já Lacan, ao retomar a obra freudiana traçou um percurso ordenado sobre os ideais de Freud, pois este se preocupava em reabsorver a Psicanálise às ciências da natureza.

De acordo com o autor, a metapsicologia freudiana nunca foi mais do que uma análise da estrutura radical da linguagem, uma lógica do significante. Para Lacan há, sobretudo, uma teoria da prática analítica que se supõe ser a estrutura do inconsciente, ou seja, a análise forma parte do próprio conceito de inconsciente.

Lacan, em seu ato de escrever, mobiliza todos os recursos retóricos e homofônicos da língua. Sendo assim, Miller vem dizer ser muito difícil seguir o discurso Lacaniano, frente a todo um estilo próprio de Lacan em que ele se apóia. Quando Lacan faz uso de uma palavra, não se deve compreendê-la em seu uso habitual, pois para entendê-lo requer estudo. A obra lacaniana trata-se de uma teoria de sucessão, de continuidade, que se torna difícil de captar seus pormenores. O autor retoma, que ao mesmo tempo em que encontramos refinamentos, em sua teoria, encontramos também esquemas, formas e grafos que a constituem.

Pode-se dizer que a teoria lacaniana ainda não encontrou seu esgotamento, sempre há o que se discutir, mesmo esta tendo 30 anos de duração. Lacan data o começo do seu ensino, propriamente, apenas a partir de 1953. Localiza esse início a partir do texto “Função e campo da palavra e da linguagem em Psicanálise”. Antes disso, Lacan era um médico psiquiatra que escreveu vários artigos sobre sua prática clínica neste âmbito.

Depois de 1945, Lacan desenvolve a primeira teoria da Psicanálise, sobretudo, após a guerra. Ele fez do imaginário a dimensão própria da experiência analítica.

Em 1953, por causa do movimento psicanalítico francês, Lacan introduz a proposição “o inconsciente estruturado como uma linguagem” e a distinção do Real.

Miller neste texto traz uma nota muito importante, localiza as seguintes datas: Entre 1953 e 1963, o ensino lacaniano toma a forma de um seminário de textos freudianos. Cada ano dedicado a um conceito, uma ou duas obras de Freud. Neste período a dimensão essencial da experiência é a do simbólico.

Nos primeiros 10 anos de 1964-1974, aproveitando o segundo movimento psicanalítico, já não se discute diretamente os textos de Freud, mas são os próprios termos lacanianos a entrar em cena como, por exemplo, o sujeito barrado, o objeto a e o Outro A (maiúsculo).

Depois de 1974 entramos no terceiro período, no qual o autor distingue como o ensino de Lacan propriamente dito, tomando por objeto o próprio fundamento de seu discurso e a tripartição do Real, Simbólico e o Imaginário. E no último período o conceito sobre o Real tornou o mais essencial. O autor destaca todo o discurso de Lacan, como uma lógica irresistível e que a tripartição ocupou o 1º lugar.

Para Miller, de acordo com Lacan, o estádio do espelho resume-se no interesse lúdico da criança em dá mostras, entre os seis e os dezoitos meses, a sua imagem especular. A criança reconhece sua imagem e se interessa por ela. Para Lacan, este é um fator observável. Posteriormente, Lacan considerou que o essencial não era o estádio e sua observação, mas sim o interesse singular da criança, o desamparo na qual experimenta uma discordância intra-orgânica. Portanto, a imagem é a sua (imagem da criança), mas ao mesmo tempo é de um outro. A imagem captura a criança e esta se identifica com ela. Isso, segundo o próprio Miller, levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária é constitutiva do eu (mói).

A partir desse princípio, Lacan pensou na experiência cotidiana, no que diz respeito à agressividade do homem com relação ao seu semelhante, justamente por ser semelhante, por que é outro e sendo ao mesmo tempo ele mesmo sobre o modelo desta imagem. Isso também explica a relação paranóica do homem com seu objeto.

Miller retoma o conceito do eu (mói) e vem dizer que essa questão comprometia Lacan com uma via oposta à via anglo-saxônica da psicanálise. No mesmo período em que Lacan tratava o estádio do espelho, temos em Nova York e em Chicago ema teoria bem diferente, que propuseram reinterpretar Freud a partir de sua segunda tópica. Essa concepção tem tido grande triunfo até os dias atuais nos países ingleses e norte-americanos. A tópica freudiana que distingue o eu, supereu e o isso é uma teoria tardia e tais psicanalistas tomam o eu como instância central da personalidade.

Já Lacan, disse que a concepção do eu, ainda que esta idéia esteja em Freud, é originalmente um engano, pois está constitutivamente desintegrado. O eu, na concepção do estádio do espelho, não é um unificador e sim uma desordem de identificações imaginárias no que diz respeito à cura analítica. Segundo essa concepção tais identificações imaginárias reaparecem sucessivamente.

Miller cita que o eu é uma desordem e é assim que ele aparece no campo da psicanálise, já em outros campos é possível dar-lhe outros valores e é por isso que a psicanálise não é uma psicologia – é essa concepção não unificada, não unificante do eu.

Então, essa primeira parte da teoria lacaniana encontra uma dificuldade: A relação imaginária entre o eu e o outro é uma relação mortífera, uma relação na qual está o eu ou o outro. É ai, que Lacan em seu inicio teórico distingue o imaginário e o simbólico. Miller vem dizer, que o conceito de simbólico é uma noção bem elaborada e tem duas vertentes: Uma pela via da palavra e outra pela vertente da linguagem.

Sobre a vertente da palavra: Tem como função pacificadora, ou seja, identificações salvadoras que permitem superar a rivalidade imaginária. Portanto, a palavra adquire uma função de mediação entre os sujeitos.

Quanto ao sintoma, este é um defeito de simbolização. De acordo com o autor, o sintoma constitui um centro de opacidade no sujeito por que não foi verbalizado, não foi passado para via da palavra. A cura analítica, digamos assim, passa por essa via, uma “cura na simbolização”. Para Miller, a cura é um processo fundamentalmente intersubjetivo, no decorrer do qual o sujeito é levado a restabelecer a continuidade de sua história, interrompida pelo sintoma. A cura opera porque permite da significação retroativa ao que permaneceu opaco para o sujeito em sua experiência.

Sobre a vertente da Linguagem: sobre esta podemos dizer que Lacan recorreu a lingüística para complementar seus pensamentos. Segundo o autor, pode-se chamar de ordem simbólica como conjunto diacrítico de elementos discretos, separados. Valores que são adquiridos na relação uns com os outros, vem da lingüística estrutural de Saussure.

Sobre as duas vertentes, pode-se dizer que existe um problema particular. A primeira vertente é, sobretudo, da significação e a segunda vertente é da ordem do sem-sentido.

Podemos observar que Lacan passou da primeira vertente à segunda, buscando em Saussure um paralelo entre o significante e o significado, onde o primeiro atua sobre o segundo, no qual o significante cria o significado e é a partir do sem-sentido do significante que se engedra a significação.

Em outro plano, Lacan introduz o conceito de cadeia de significantes para dar conta da sobredeterminação na qual vê a condição de toda formação do inconsciente.

Lacan assinala que o automatismo de repetição, no sentido de Freud, veicula uma marca indelével e que o inconsciente está constituído por essa marca, da qual o sujeito não consegue desembaraçar-se. Em um terceiro momento, Lacan faz funcionar o simbólico, a estrutura íntegra, como um termo. A relação entre a estrutura simbólica e o sujeito, se distingue da relação imaginária do eu e o do outro. Por isso, de acordo com Miller, introduziu-se a escritura com Outro com maiúscula (A), que se diferencia do outro (minúsculo).

Sobre o Outro, pode-se dizer que este está relacionado ao grande Outro (A), da linguagem. Outro do discurso universal, de tudo que foi dito. É um Outro também ligado a verdade, esse Outro que é um terceiro em relação a todo o diálogo. O Outro de Lacan é também um Outro cujo inconsciente é o discurso , do desejo, do desejo do inconsciente. Miller vem dizer, que o que Lacan chama de Outro é uma dimensão de exterioridade que tem uma função determinante para o sujeito. O autor completa que ao se ler na obra freudiana o “Outro”, este possui várias significações variadas. Essa construção, portanto, implica que o inconsciente não resiste, ele repete. Ele gira como uma mensagem no computador, não deixa de girar e sempre diz a mesma coisa.

Miller indaga qual a função do psicanalista. Para que deve tê-lo preparado sua formação? O analista tem como função desaparecer enquanto eu (mói), não deve permitir que suas relações imaginárias domine a situação analítica. Na experiência analítica deve ocupar-se do lugar do grande Outro, apenas desse lugar tem a possibilidade de desfazer o sintoma. Lacan desenvolve várias outras hipóteses sobre a posição analítica, mas essa é valiosa, confirma o autor.

Ao citar o esquema desenvolvido por Lacan em seu livro, Miller ressalta que Lacan em um primeiro momento é estruturalista, em um segundo sentindo um estruturalista radical e num terceiro sentido de modo algum ele seria estruturalista. Isto por que a estrutura dos estruturalistas é uma estrutura completa e coerente, já a estrutura lacaniana é antinômica e incompleta. Lacan se ocupa da estrutura e do sujeito, questão inexistente para os estruturalistas de fato.

A estrutura lacaniana é uma estrutura que captura o ser vivente, particular, que fala. Isso cria uma diferença com todas as psicologias, tanto humana quanto animal. Não se pode observar a linguagem simplesmente como um meio de expressão. Sobre o significante, Miller diz que a estrutura significante, tem um efeito de desvitalização do corpo, mortifica-o. Em geral, segundo o autor, no homem, o significante substitui a necessidade, pois a demanda ao Outro tende a se converter em demanda pura da resposta do Outro e é ai que se coloca o amor, que vai além da satisfação da necessidade.

Para Lacan o princípio da identificação simbólica se dá a partir do significante da resposta do grande Outro, a primeira identificação do sujeito.

Por fim, Miller vem dizer que o desejo no sentido de Freud, este desejo do inconsciente é um desejo sempre particular de cada um. Não há satisfação para o desejo, o desejo está a tal ponto capturado no deslizamento da cadeia significante. Este desejo, portanto, não está destinado à plenitude, ele está coordenado, a uma função de falta e carência.

REFERÊNCIA:

MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988. p. 11 – 26.

As Funções das Entrevistas Preliminares

O texto do Quinet vem tratar primeiramente do que Freud nomeou de tratamento de ensaio. Tratamento este de uma ou mais semanas antes do início da análise propriamente dita, no qual o prosseguimento do tratamento está absolutamente ligada a transferência.

Resumo do primeiro capítulo do livro “As 4+1 condições de análise”

Thaís Rafael

O texto do Quinet vem tratar primeiramente do que Freud nomeou de tratamento de ensaio. Tratamento este de uma ou mais semanas antes do início da análise propriamente dita, no qual o prosseguimento do tratamento está absolutamente ligada a transferência.

Segundo o autor, a expressão “entrevistas preliminares” em Lacan está relacionada ao tratamento de ensaio em Freud. Esse conceito indica que há uma porta de entrada em relação à análise. Trata-se de um tempo de trabalho prévio. O nome “preliminar” indica um corte que deve ser feito para que o sujeito entre em análise propriamente dita. Deve-se atravessar o umbral dos preliminares para entrar no discurso analítico. Contudo, é bom lembrarmos de que: “Não há entrada em análise sem as entrevistas preliminares”.

Ademais, tanto nas entrevistas preliminares ou na própria análise o que está em jogo é a associação livre. Esse momento inicial deve obedecer também às regras de uma análise.

As entrevistas preliminares possuem a mesma estrutura da análise, mas são distintas desta. Podemos então escrever esse paradoxo assim:

EP = A  ↔ EP # A

As entrevistas preliminares são iguais à análise, implicando que entrevistas preliminares são diferentes da análise. No ponto de vista do analista, as entrevistas preliminares podem ser divididas em dois tempos: um tempo de compreender e um tempo de concluir, no qual toma sua decisão. É nessa conclusão que se faz surgir o ato psicanalítico no qual o analista assume seu papel, transformando esse passo inicial em análise propriamente dita.

Quinet vem dizer que existem três funções para as entrevistas preliminares: Primeiramente a função sintomal (sinto-mal), no qual o sujeito irá trazer a demanda, irá dizer de si. Essa demanda não deve ser aceita em estado bruto, mas deve ser questionada. Para Lacan, segundo o autor, só há uma demanda verdadeira para se dar início a uma análise: a demanda de desvencilhar de um sintoma. A demanda de análise é correlata à elaboração do sintoma enquanto “sintoma analítico”. É preciso que a queixa se transforme numa demanda endereçada ao analista, para que este seja decifrado.

É importante que o sintoma, que é um significado para o sujeito, readquira sua dimensão de significante, implicando o sujeito e o desejo. O desejo, portanto, é uma questão que cabe ao analista introduzir nessa dimensão sintomal. Esse momento em que o sintoma é transformado em um enigma é também um momento de histerização, já que o sintoma representa a divisão do sujeito.

Segundo o autor, é de suma importância que o sujeito dirija-se ao analista com a seguinte questão: O que isto quer dizer? O que significa isto? Tal posição inclui um saber, pois supõe que o analista detém a verdade de seu sintoma.

A segunda função, nomeada como função diagnóstica, será relevante para o diagnóstico da estrutura clínica. O diagnóstico só tem sentido se servir de orientação para a condução da análise. Ademais, o diagnóstico só pode ser buscado no registro do simbólico, onde são articuladas as questões fundamentais do sujeito. Sendo elas, sobre o sexo, a morte, a procriação, a paternidade e sobre o complexo de Édipo e a inscrição do Nome- do- Pai no Outro da linguagem. É através do simbólico que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural, correspondentes às três estruturas clínicas.

Estrutura ClínicaForma de NegaçãoLocal de RetornoFenômeno
NeuroseRecalqueSimbólicoSintoma
PerversãoDesmentidoSimbólicoFetiche
PsicoseForaclusãoRealAlucinação

Sobre o quadro acima, o autor vem dizer que, a respeito das estruturas clínicas cada modo de negação é concomitante a um tipo de retorno do que é negado. No recalque, por exemplo, o que é negado no simbólico retorna no próprio simbólico sob a forma de sintoma, ou seja, o sintoma neurótico.

No desmentido, o que é negado retorna no simbólico, mas como forma de fetiche do perverso. Na psicose, o que é negado no simbólico retorna no real sob forma de alucinação.

O que é importante de ressaltar no caso da psicose é que a resposta para a promessa de cura por parte do psicanalista não pode perpassar pela inserção deste psicótico na forma fálica. A foraclusão do Nome – do – Pai exclui o sujeito da norma fálica, riscando qualquer esperança do analista de fazê-lo bascular para o lado da neurose. Portanto, não se pode tornar um neurótico um psicótico.

Quinet, em seu texto, vai abordar a questão da contra – indicação da Psicanálise para os psicóticos, do manejo que deve ter um analista, afinal, de aceitarmos um pré-psicótico em análise já sabemos o resultado – psicótico. A análise, como lugar da tomada da palavra, pode desencadear uma psicose até então não declarada.

 O autor complementa sua idéia dizendo que o importante nas entrevistas preliminares a ultrapassagem do plano das estruturas clínicas para se chegar ao plano dos tipos clínicos como, histeria e obsessão, para que assim, possa estabelecer a estratégia da direção da análise.

Para o obsessivo, o Outro goza, ou seja, esse Outro é patente no personagem do Pai da horda primitiva, trata-se de um Outro que impede seu acesso ao sujeito. É nesse lugar de Outro que ele se instala, marcando seu desejo pela impossibilidade. Na fantasia do obsessivo a marca do impossível desvanece do sujeito para escapar do Outro.

Ao situar esse Outro como mestre e senhor o obsessivo ocupa o lugar de escravo, no qual trabalha e se esforça na tentativa de enganar seu senhor, mas engana a si próprio acreditando que este método lhe dará acesso ao Gozo.

Quinet vem dizer que na clínica do obsessivo encontramos dois significantes o pai e a morte, denotando a articulação da lei com o assassinato do pai na constituição da dívida simbólica.

Por sua vez, na histeria o Outro é o Outro do desejo, marcado pela falta e pela impotência em alcançar o gozo. A histérica confere ao Outro o lugar de domínio na cena de sedução de sua fantasia. Isso aparece na clínica como uma reivindicação ao Outro, que diferente do obsessivo, não deve nada e sim o Outro que lhe deve.

A histérica não ocupa o lugar de escravidão, apesar de estar sempre à procura de um mestre. Inventa um senhor, não para ser submissa, mas sim para reinar apontando as falhas de sua dominação e mestria.

E, por fim, a função transferencial, responsável pelo sujeito – suposto – saber, importantíssimo para o desenrolar da análise propriamente dita. Sobre este conceito Quinet relata que, a transferência não é uma função do analista, ma sim do analisando e cabe a este analista manejá-la.

A posição do analista não é a de saber e nem de compreensão, mas ele deve estar ciente que a comunicação é baseada no mal-entendido. Sua posição deve ser uma posição de ignorância e não de saber.

Quinet aponta que o estabelecimento da transferência no registro do saber através de sua posição é correlato à delegação àquele que é seu alvo de um bem precioso que causa o desejo. O analista, portanto, ficará num primeiro momento no lugar de “sujeito suposto saber” ligado ao imaginário daquele que o procura.

Por fim, o autor vem falar da retificação subjetiva. Essa retificação subjetiva constitui na transição, na passagem que o sujeito analisando faz em deixar de queixar-se dos outros e queixar-se de si, voltar às questões que o acarretam para si mesmo. Para isso, são de suma importância as pontuações do analista para que o sujeito a sua frente se responsabilize pelo que diz, implicar esse sujeito em suas queixas, afinal, as pontuações serão direcionadas ao inconsciente do analisando.

No neurótico obsessivo, a retificação se situa no plano da retificação da causalidade, que se apresenta como conseqüência: sua impossibilidade de agir que é correlata a sua modalidade de sustentação do desejo como impossível.

Já na histeria, a retificação subjetiva visa à implicação do sujeito em sua reivindicação dirigida ao Outro, deixando o lugar de vitima e sacrificada para a de agente da intriga da qual se queixa, e que sustenta seu desejo na insatisfação.

Portanto, a retificação subjetiva trata-se de introduzir o sujeito em sua responsabilidade na escolha de sua neurose, pois a retificação aponta para a escolha do sujeito, pois mesmo onde ele não pensa, ele escolhe.

REFERÊNCIA:

QUINET, Antônio. As 4 + 1 condições de análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. 9.ed. p. 13 – 34.

Psicanálise ou Psicoterapia: Eis a questão

Diante de toda construção da história da psicanálise e de todos os conceitos freudianos desenvolvidos ao longo de vários períodos, o que podemos destacar é, sem sombras de dúvidas, a visão freudiana quanto ao lugar ocupado pelo analista, ou seja, o abandono do lugar de mestria e sua inserção no inconsciente através da fala do analisando.

Thaís Rafael

Introdução

Diante de toda construção da história da psicanálise e de todos os conceitos freudianos desenvolvidos ao longo de vários períodos, o que podemos destacar é, sem sombras de dúvidas, a visão freudiana quanto ao lugar ocupado pelo analista, ou seja, o abandono do lugar de mestria e sua inserção no inconsciente através da fala do analisando. (MILLER, 1988).

Podemos observar que Freud (1914/1996) iniciou o seu trabalho através dos estudos em pacientes histéricas dentro dos hospitais. Essas pacientes eram tratadas com descaso pela medicina da época, uma vez que seus sintomas, para ciência, perpassavam mais por uma teatralidade do que uma etiologia orgânica. Foi através da estranheza dos sintomas histéricos que nasce uma teoria, uma abordagem capaz de se diferenciar de toda psicologia desenvolvida. Assim, a psicanálise constrói uma identidade única se diferenciando até mesmo da psicologia e das práticas diversas de psicoterapia.

Portanto, a cerne do texto a seguir tem como objetivo retomar um pouco dessa trajetória história da psicanálise e contrapor sobre algumas posições psicoterápicas, que apesar de seus efeitos, que se diferenciam em muitos pontos da prática analista.

A Construção do saber psicanalítico

A Psicanálise nasceu no Séc. XIX, através dos estudos de um jovem médico Vienense Sigmund Freud (FREUD,1914/1996), que se interessou pelos casos das histéricas observando o trabalho de um neurologista chamado Charcot. Para este médico, a histeria deveria ter alguma causalidade orgânica, mudando de idéia posteriormente classificando-a como “[…] uma doença que escapa às mais penetrantes investigações anatômicas”. (GARCIA-ROZA, 2002, p. 32).

Freud (1914/1996) se interessou pelo método da hipnose, tendo trabalhado arduamente com a técnica a fim de se chegar a uma possível cura para histeria, que foi diagnosticada como uma causalidade psíquica e a não questões ligadas a etiologias orgânicas, como os médicos acreditavam.

Com o trabalho sobre a hipnose, Freud percebe que tal procedimento apenas eliminava o sintoma, mas não sua verdadeira causa. Com isso,

Freud propõe, então, que se empregue um método elaborado por Joseph Breuer e que consiste em fazer o paciente remontar, sob efeito hipnótico, à pré-história psíquica da doença a fim de que possa ser localizado o acontecimento traumático que originou o distúrbio (GARCIA-ROZA, 2002, p. 35).

Ainda com a hipnose, Freud inovou o procedimento, incluindo a sugestão como meio terapêutico, pois até então, Breuer em seu método aguardava que as pacientes chegassem ao ponto traumático. Com o uso da sugestão Freud podia eliminar o fato traumático recontando a cena apontada por suas pacientes.

Após um período, Freud (1914/1996) acabou abandonando a hipnose concluindo que tal método desloca o sintoma de lugar, mas não o eliminava completamente como acreditava, pois tal procedimento não alcança a raiz das verdadeiras questões histéricas – a sexualidade.

A questão da sexualidade é sim muito importante, mas o grande tesouro da Psicanálise se dá através das manifestações inconscientes trabalhas a finco por Sigmund Freud. Tal descoberta é o cerne de todo o trabalho freudiano. (GARCIA – ROZA, 2002).

Portanto, com o abandono da hipnose, Freud resolve trabalhar com que irá denominar de regra fundamental da Psicanálise, a associação livre. (FREUD, 1912/1996). Tal método permite que o sujeito, fale de suas questões livremente. Freud acreditava que com tal dispositivo seria possível alcançar as manifestações do inconsciente do sujeito, através dos chamados atos falhos, chistes, sonhos e sintomas, que o paciente irá manifestar durante o processo analítico.

Esses eventos ocorrem, por que o sujeito irá recalcar aquilo que sua consciência não suporta, isto é, o desejo, devido ao fato de que a experiência primordial de satisfação é impossível de ser revivida (FREUD, 1900/1996).  Acerca disso, o livro “Freud e o Inconsciente” de Luiz Alfredo Garcia-Roza, explica as seguintes observações feitas pelo pai da Psicanálise.

Quando Freud abandona a hipnose e solicita aos seus pacientes que procurem se lembrar do fato traumático que poderia ter causado os sintomas, verifica que tanto a insistência quanto os esforços do paciente com uma resistência destes a que as idéias patogênicas se tornassem conscientes. Qual seria a natureza dessas idéias e por que geravam essa resistência? Analisando detalhadamente os casos de análise completa de que já dispunha, chegou à conclusão de que todas essas idéias eram de natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergonha, de autocensura e de dor psíquica. (GARCIA-ROZA, 2002, p. 37/38).

Pode-se dizer que o nascedouro da Psicanálise foi através dos estudos profundos sobre a histeria, no qual foram observados os acontecimentos que ocorriam com as pacientes, descobrindo assim, o fascínio de que nomeou como Inconsciente.

Psicanálise x Psicoterapia

A partir desse pequeno relato sobre a construção do saber psicanalítico, fica evidente a diferença do modo de trabalhar de um psicanalista e de um psicólogo, por exemplo, apto a intervir com a famosa psicoterapia. Sobre esta podemos dizer que sua prática ainda se fundamenta na sugestão.

Sobre esta questão no texto “Sobre a Psicoterapia” Freud cita sua responsabilidade quanto à prática psicoterápica, uma vez, que participou de sua construção, pois foi ele quem a criou, apesar de tê-la abandonado. “Em todos os casos graves, vi a sugestão introduzida voltar a desmoronar, e então reaparecia a doença ou um substituto dela” (FREUD, 1904 – 1905/1996, p. 247).

Não obstante, neste mesmo texto, Freud (1904 – 1905/1996) faz uma observação quanto à prática da psicoterapia e a terapia analítica, termo usado para referir sua atuação. Ainda sobre a sugestão, ele dirá que essa é uma forma de impedir que a expressão da idéia patogênica venha à tona. No que se refere à terapia analítica, esta tem a função de subtrair, ou seja, retirar das profundezas do sujeito a causa patogênica. A terapia analítica não pretende acrescentar algo de novo, mas apenas trazer algo de dentro para fora.

É importante ressaltar que a psicanálise se estabelece após o abandono da técnica hipnótica, passando pelo uso de técnicas sugestivas até se fixar em sua regra fundamental, a associação livre. O psicanalista então traçará uma investigação do inconsciente, a fim de que o analisando construa um saber acerca de suas questões até então desconhecidas. Sobre isso

[…] a descoberta freudiana não seria propriamente a existência do Inconsciente, mas a formalização deste como um fator determinante do psiquismo de um sujeito humano. O axioma do determinismo psíquico é o axioma da Psicanálise. O que fez a partir desta descoberta? Inventou o psicanalista, aquele que se propõe a analisar o psiquismo, aquele que, por meio de um procedimento bastante especifico, promoveria a revelação do inconsciente com o objetivo terapêutico de livrar o sujeito da angústia causada por aquilo que é seu, mas do qual nada sabe. (MORETTO, 2001, p. 24)

A Psicanálise irá trabalhar com as manifestações provenientes do inconsciente do sujeito. Elementos pertencentes a este sujeito, mas que por algum motivo foram recalcados. E essa dinâmica analítica, ocorre por algo precioso, definidor de todo processo analítico, essa preciosidade denominada como transferência.

Sobre o psiquismo, Miller (1997) vem dizer que tanto a psicoterapia e a psicanálise vinculam a causa psíquica do problema em questão, ou seja, ambas admitem a existência de uma realidade psíquica.  Além disso, irão se valer também de uma transferência.

Freud erigiu a regra fundamental pela qual se acessa o caminho para o inconsciente, ou seja, a associação livre. Como já afirmado, a partir de sua intervenção por esta via, a transferência se estabelecerá, ressaltando que a esta não se constitui uma modalidade unívoca, possuindo vários aspectos. Portanto, será esta lógica de trabalho do analista que produzirá a constituição da transferência no contexto da clínica psicanalítica. (FREUD, 1912/1996).

 Em outros termos, sob a rubrica do sujeito suposto saber, este conceito implicará à garantia ao paciente de que há um saber naquilo que é dito e que isso tem o seu valor. Não se trata de um sujeito que tudo sabe, embora possa ser produzida esta situação.

Sobre este ponto, podemos observar que uma das grandes diferenças estabelecidas entre a psicanálise e a psicoterapia é que esta, a psicoterapia, se vale do lugar de mestre, do lugar da sugestão, lugar este abandonado pela teoria freudiana. A psicanálise por sua vez, recusa a assumir este lugar de mestria. Além do mais, o inconsciente será o objeto central de todo desenrolar analítico. Ademais, a psicoterapia “trata-se de restituir ao eu (moi) suas funções de síntese e de maestria, sob o olho do mestre que desempenha o papel de modelo” (MILLER, 1997, p.13).

Contudo, existem semelhanças, segundo Miller (1997), as duas abordagens, tanto a psicanálise quanto a psicoterapia utilizam a fala, a palavra como técnica.

A partir dos ensinos e teorizações de Jacques Lacan (1953-1954/1986), pode-se notar que a linguagem passa a ser fundamental, na medida em que esta participa da estruturação do inconsciente. Dessa maneira, o inconsciente, ao sofrer as intervenções analíticas, exigindo, a cada dia, que os analistas pensem e re-pensem a sua prática. (MILLER, 1988).

Em algum momento é possível um diálogo entre a psicanálise e a psicoterapia, isso ocorre quando utilizamos a abordagem psicanalítica dentro de instituições, por exemplo, utilizando – se da psicanálise aplicada à terapêutica.

Segundo Miller (2002), no que diz respeito a psicanálise aplicada à terapêutica, iremos até um certo ponto do grafo do desejo, iremos nos valer do primeiro andar deste grafo.  Com certeza, existem efeitos na primeira parte do grafo, no qual o psicanalista responsável irá dar um sentido para os significantes, irá nomeá-los, irá intervir. Às vezes fará o papel do Outro, mesmo que não permaneça neste lugar, mas irá fazer com que haja um efeito terapêutico. Sobre o andar de baixo do grafo do desejo Quinet traz algumas importantes observações:

Ao endereçar a sua fala ao analista no lugar do A, o sujeito transfere aquilo que é para ele o significado do Outro, ou seja, seu sintoma. Pela não resposta do analista, é possível ir para o patamar superior e não ficar circulando no circuito de baixo, que é, propriamente falando, o circuito imaginário, do sentido, da consciência, do eu do sujeito. […] As psicoterapias atuam nesse circuito trabalhando sobre o ego o significado do sintoma e reforçando os ideais. Já a psicanálise modifica essas instâncias atuando não sobre eles diretamente, e sim sobre suas determinações inconscientes (QUINET, 2003, p. 102).

É importante ressaltar, que a proposta não é transformar a psicanálise em psicoterapia, isso seria irrisório, mas o primeiro plano do grafo do desejo se assemelha com os efeitos produzidos em uma psicoterapia, mesmo que a Psicanálise não se proponha ficar neste primeiro plano.

Portanto, os efeitos de alivio frente a um sintoma, qualquer intervenção pode produzir. O foco das atuações psicoterapêuticas é, portanto, as relações imaginárias, restringindo-se àquilo que é demandado pelo paciente.

O sujeito institui assim um Outro que possua um significante mestre com a qual possa identificar-se e que o salve de ter que se tornar a seu próprio cargo. Até aqui estamos no campo das Psicoterapias, mas que é também ponto de inserção com a Psicanálise e sua possível porta de entrada. E a diferença, qual é? A diferença é que o psicanalista não responde as questões do sujeito. Não oferece significantes com os quais ele possa se identificar. Ele não se propõe calar o sintoma, mas interrogá-lo para que o saber inconsciente se movimente. (BAÊTA, 1996, p. 75).

É de suma importância que a psicanálise, mesmo a psicanálise aplicada à terapêutica, mantenha seu preceito primordial, a associação livre. É fundamental, que a psicanálise continue a se ater para o inconsciente do sujeito, que sua escuta seja uma escuta direcionada a fala do sujeito.

Conclusão

Podemos perceber então, que através dos estudos freudianos sobre a histeria que surge uma curiosa prática, a sugestão hipnótica, método capaz de remontar uma cena traumática através de um estado de rebaixamento da consciência. Assim, surge à sugestão, método posteriormente abandonado por Freud, que abre caminhos não somente para todo o trabalho analítico, mas também para práticas psicoterápicas.

É de suma importância observar que as duas abordagens se fazem valer, a partir da fala, da transferência e do endereçamento do sujeito, que busca uma cura. É possível encontrar um dialogo entre ambas, na medida em, que através da psicanálise aplicada à terapêutica, produzem um alívio sintomático e se encontram no plano primeiro do grafo do desejo.

As diferenças se destacam, quando ressaltamos a importância da prática analítica, mesmo dentro das instituições, de manter seus preceitos como, por exemplo, a associação livre. Além disso, a busca pelo inconsciente através das manifestações provenientes deste, que traçará a atuação do psicanalista.

Já a psicoterapia, se faz valer do lugar de mestria, respondendo as demandas do sujeito. Para a psicanálise, tal lugar, também é ocupado em certa medida, mas jamais deve se permanecer em tal patamar.

REFERÊNCIAS

BAÊTA, Maria de Lourdes. A transferência no hospital geral – uma questão polêmica. In: Revista Reverso. 1996.

FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico (1914). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XIV, 1996. 13-73 p.

FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento (1912). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XII,. 137 – 160 p.

FREUD, Sigmund. Sobre a Psicoterapia (1904 – 1905). In:Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XIV, 1996. 244 – 254 p.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. A pré-história da psicanálise – 1. In: GARCIA-ROZA. Freud e o inconsciente. 16. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. 2-41p.

MILLER, Jacques-Alain. Psicanálise e psicoterapia. In: FORBES, Jorge (org). Psicanálise e psicoterapia. São Paulo: Papiros, 1997. 9 – 19 p.

Miller, Jacques-Alain. Psychanalyse purê, psychanalyse appliqué et psychothérapie. In: La cause freudienne, nº 48, 2002.

MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988.

MORETTO, Maria Lívia Tourinho. O que pode um analista no hospital? 3. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008. 217 p.

LACAN, Jacques. (1953-1954). Momento da resistência: In: LACAN, Jacques. O seminário, livro1:os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. p. 14-88.

QUINET, Antonio. Demanda e desejo. In: A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003. 87 – 116 p.

Divã e Drummond

Ao retomar o poema de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho”, podemos evidenciar que no meio do caminho existe uma pedra, existe uma pedra no caminho. Ao refletir sobre este poema á luz da psicanálise, podemos indagar que só existe caminho, pois existe uma pedra e só há o obstáculo da pedra porque alguém se pôs a caminho, ou seja, há pedra porque há caminho (Miller, 1998).

Thaís Rafael

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra […]

(Carlos Drummond de Andrade)

Ao retomar o poema de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho”, podemos evidenciar que no meio do caminho existe uma pedra, existe uma pedra no caminho. Ao refletir sobre este poema á luz da psicanálise, podemos indagar que só existe caminho, pois existe uma pedra e só há o obstáculo da pedra porque alguém se pôs a caminho, ou seja, há pedra porque há caminho (Miller, 1998).

Existe uma pedra no qual nos deparamos ao entrarmos em análise, ao resolvermos caminhar e é sobre esta questão que gostaria de esboçar alguns comentários.

Primeiramente o ser falante tem inúmeros caminhos que ele elucida em sua trajetória analítica, ele vai ao trabalho, vai à casa de familiares, vai a seminários, ele vai e volta destes inúmeros caminhos diversas vezes. Contudo, há algo mais essencial, peculiar relacionado a este caminho que o ser falante percorre, é o caminho da sua fala.  Aquilo que fica escamoteado, escondido e inaudível é a pedra desse seu caminho, da sua fala.

A fala que se repete, que não se esquece, que atrapalha o percorrer pelo caminho e fatiga o sujeito. Sendo assim,

[…] é somente naquilo que se chama de cura psicanalítica que ele se apercebe estar na rota do caminho de sua fala, e que nesse caminho tem uma pedra. A cura analítica é a experiência daquilo que significa estar – na – fala. Carlos Drummond de Andrade situa sua obra poética sob o título “Tentativa de exploração e interpretação do estar – no – mundo”. Digamos que a psicanálise é uma tentativa de exploração e de interpretação do estar – na – fala. (MILLER, 1998, p. 33).

Ademais, o caminho que importa para a cena analítica se trata do caminho da fala, contudo, a pedra que encontramos nesta cena também se trata da pedra da fala. O ser falante fala, percorre seu caminho e se depara com uma pedra que estar na fala ou no não dito de sua fala, pois nunca teremos acesso absoluto das falas do sujeito.

Freud (1937/1996) no texto “análise terminável e interminável”, dirá que mesmo que tenhamos acesso ao inconsciente, temos acesso apenas à parte dele, sempre há o que investigar, a descobrir, a revelar. O inconsciente sempre tem algo de novo para descortinar dentro da cena analítica.

É interessante pensarmos que o analisando em tratamento analítico ao falar, fala de suas questões, que com as intervenções e pontuações do analista pode vir a articular o que antes não fazia sentido. Miller, em seu livro “O osso de uma análise”, irá dizer:

[…] e é o que se constata também nos relatos de passe. Existem sujeitos que elucidaram sua repetição, que cingiram seu significante do destino, mas sua análise não está terminada, apesar disso, enquanto eles não cederem o gozo que poderia estar fixado a essa repetição e a esse significante […] (MILLER, 1998, p. 72).

Talvez esse “osso” citado por Miller (1998), seja justamente essa pedra, no qual o sujeito não esquece que há sempre um obstáculo em seu caminho, existe sempre um caminho a se percorrer e novas pedras a tropeçar. Pedras que se repetem, falas que não se calam, que não cessam em se manifestar.

Diante do exposto podemos pensar no que Bernardes (2003) abordou em seu livro, “Tratar o impossível. A função da fala em psicanálise”, pois se não temos acesso a todo conteúdo deste sujeito, a profissão de “analisar” é da ordem do impossível.

Quando Andrade (1975) relata em seu poema que nunca se esquecerá que no meio do caminho existe uma pedra, seja talvez, para demonstrar que ela estará sempre ali, sempre que alguém se dispuser a trilhar o caminho, ali estará a pedra.

A análise não irá acabar com a repetição dessa fala, não retirará do caminho essa pedra, mas dará um novo sentido ao caminho ou a pedra, ou ainda, simplesmente aceitar as pedras do caminho da trajetória.  “O que é uma análise, se não aquilo que deve permitir ao sujeito assumir plenamente aquela que é sua própria estória” (LACAN, 1952, p. 5).

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. “No meio do Caminho”. Em Antologia Poética. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975. 186 p.

BERNARDES, Angela C. Tratar o impossível: a função da fala na psicanálise. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. 172 p.

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