{"id":436,"date":"2021-10-07T23:29:59","date_gmt":"2021-10-08T02:29:59","guid":{"rendered":"https:\/\/symbolize.com.br\/?p=436"},"modified":"2021-10-12T00:30:40","modified_gmt":"2021-10-12T03:30:40","slug":"diva-e-drummond","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/symbolize.com.br\/index.php\/2021\/10\/07\/diva-e-drummond\/","title":{"rendered":"Div\u00e3 e Drummond"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Tha\u00eds Rafael<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>No meio do caminho tinha uma pedra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Tinha uma pedra no meio do caminho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Tinha uma pedra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>No meio do caminho tinha uma pedra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Nunca me esquecerei desse acontecimento<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Na vida de minhas retinas t\u00e3o fatigadas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Nunca me esquecerei que no meio do caminho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Tinha uma pedra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Tinha uma pedra no meio do caminho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>No meio do caminho tinha uma pedra [&#8230;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>(Carlos Drummond de Andrade)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao retomar o poema de Carlos Drummond de Andrade, \u201cNo meio do caminho\u201d, podemos evidenciar que no meio do caminho existe uma pedra, existe uma pedra no caminho. Ao refletir sobre este poema \u00e1 luz da psican\u00e1lise, podemos indagar que s\u00f3 existe caminho, pois existe uma pedra e s\u00f3 h\u00e1 o obst\u00e1culo da pedra porque algu\u00e9m se p\u00f4s a caminho, ou seja, h\u00e1 pedra porque h\u00e1 caminho (Miller, 1998).<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma pedra no qual nos deparamos ao entrarmos em an\u00e1lise, ao resolvermos caminhar e \u00e9 sobre esta quest\u00e3o que gostaria de esbo\u00e7ar alguns coment\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente o ser falante tem in\u00fameros caminhos que ele elucida em sua trajet\u00f3ria anal\u00edtica, ele vai ao trabalho, vai \u00e0 casa de familiares, vai a semin\u00e1rios, ele vai e volta destes in\u00fameros caminhos diversas vezes. Contudo, h\u00e1 algo mais essencial, peculiar relacionado a este caminho que o ser falante percorre, \u00e9 o caminho da sua fala.&nbsp; Aquilo que fica escamoteado, escondido e inaud\u00edvel \u00e9 a pedra desse seu caminho, da sua fala.<\/p>\n\n\n\n<p>A fala que se repete, que n\u00e3o se esquece, que atrapalha o percorrer pelo caminho e fatiga o sujeito. Sendo assim,<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;] \u00e9 somente naquilo que se chama de cura psicanal\u00edtica que ele se apercebe estar na rota do caminho de sua fala, e que nesse caminho tem uma pedra. A cura anal\u00edtica \u00e9 a experi\u00eancia daquilo que significa estar \u2013 na \u2013 fala. Carlos Drummond de Andrade situa sua obra po\u00e9tica sob o t\u00edtulo \u201cTentativa de explora\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o do estar \u2013 no \u2013 mundo\u201d. Digamos que a psican\u00e1lise \u00e9 uma tentativa de explora\u00e7\u00e3o e de interpreta\u00e7\u00e3o do estar \u2013 na \u2013 fala. (MILLER, 1998, p. 33).<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, o caminho que importa para a cena anal\u00edtica se trata do caminho da fala, contudo, a pedra que encontramos nesta cena tamb\u00e9m se trata da pedra da fala. O ser falante fala, percorre seu caminho e se depara com uma pedra que estar na fala ou no n\u00e3o dito de sua fala, pois nunca teremos acesso absoluto das falas do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Freud (1937\/1996) no texto \u201can\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d, dir\u00e1 que mesmo que tenhamos acesso ao inconsciente, temos acesso apenas \u00e0 parte dele, sempre h\u00e1 o que investigar, a descobrir, a revelar. O inconsciente sempre tem algo de novo para descortinar dentro da cena anal\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante pensarmos que o analisando em tratamento anal\u00edtico ao falar, fala de suas quest\u00f5es, que com as interven\u00e7\u00f5es e pontua\u00e7\u00f5es do analista pode vir a articular o que antes n\u00e3o fazia sentido. Miller, em seu livro \u201cO osso de uma an\u00e1lise\u201d, ir\u00e1 dizer:<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;] e \u00e9 o que se constata tamb\u00e9m nos relatos de passe. Existem sujeitos que elucidaram sua repeti\u00e7\u00e3o, que cingiram seu significante do destino, mas sua an\u00e1lise n\u00e3o est\u00e1 terminada, apesar disso, enquanto eles n\u00e3o cederem o gozo que poderia estar fixado a essa repeti\u00e7\u00e3o e a esse significante [&#8230;] (MILLER, 1998, p. 72).<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esse \u201cosso\u201d citado por Miller (1998), seja justamente essa pedra, no qual o sujeito n\u00e3o esquece que h\u00e1 sempre um obst\u00e1culo em seu caminho, existe sempre um caminho a se percorrer e novas pedras a trope\u00e7ar. Pedras que se repetem, falas que n\u00e3o se calam, que n\u00e3o cessam em se manifestar.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do exposto podemos pensar no que Bernardes (2003) abordou em seu livro, \u201cTratar o imposs\u00edvel. A fun\u00e7\u00e3o da fala em psican\u00e1lise\u201d, pois se n\u00e3o temos acesso a todo conte\u00fado deste sujeito, a profiss\u00e3o de \u201canalisar\u201d \u00e9 da ordem do imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Andrade (1975) relata em seu poema que nunca se esquecer\u00e1 que no meio do caminho existe uma pedra, seja talvez, para demonstrar que ela estar\u00e1 sempre ali, sempre que algu\u00e9m se dispuser a trilhar o caminho, ali estar\u00e1 a pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise n\u00e3o ir\u00e1 acabar com a repeti\u00e7\u00e3o dessa fala, n\u00e3o retirar\u00e1 do caminho essa pedra, mas dar\u00e1 um novo sentido ao caminho ou a pedra, ou ainda, simplesmente aceitar as pedras do caminho da trajet\u00f3ria. &nbsp;\u201cO que \u00e9 uma an\u00e1lise, se n\u00e3o aquilo que deve permitir ao sujeito assumir plenamente aquela que \u00e9 sua pr\u00f3pria est\u00f3ria\u201d (LACAN, 1952, p. 5).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANDRADE, Carlos Drummond de. <strong>\u201cNo meio do Caminho\u201d.<\/strong> Em&nbsp;<em>Antologia Po\u00e9tica<\/em>. Rio de Janeiro, Jos\u00e9 Olympio, 1975. 186 p.<\/p>\n\n\n\n<p>BERNARDES, Angela C. <strong>Tratar o imposs\u00edvel:<\/strong> a fun\u00e7\u00e3o da fala na psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. 172 p.<\/p>\n\n\n\n<p>FREUD, Sigmund. An\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel (1937). In:<strong>Obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud: edi\u00e7\u00e3o standard brasileira. <\/strong>Rio de Janeiro: Imago, 1987. v. 23, 225-274 p.<\/p>\n\n\n\n<p>LACAN, Jacques. <strong>Semin\u00e1rio do homem dos lobos<\/strong>. 1952. In\u00e9dito. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/pt.scribd.com\/doc\/64010301\/seminario-sobre-o-homem-dos-lobos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/pt.scribd.com\/doc\/64010301\/seminario-sobre-o-homem-dos-lobos<\/a>. acesso em: 02\/09\/2013. MILLER, Jacques-Alain. O osso de uma an\u00e1lise. <strong>Semin\u00e1rio proferido no VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e II congresso da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. <\/strong>Salvador \u2013 Bahia \u2013 17 a 21 de Abril de 1998. 131p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao retomar o poema de Carlos Drummond de Andrade, \u201cNo meio do caminho\u201d, podemos evidenciar que no meio do caminho existe uma pedra, existe uma pedra no caminho. 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