{"id":453,"date":"2021-10-07T23:36:15","date_gmt":"2021-10-08T02:36:15","guid":{"rendered":"https:\/\/symbolize.com.br\/?p=453"},"modified":"2021-10-12T00:30:25","modified_gmt":"2021-10-12T03:30:25","slug":"as-funcoes-das-entrevistas-preliminares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/symbolize.com.br\/index.php\/2021\/10\/07\/as-funcoes-das-entrevistas-preliminares\/","title":{"rendered":"As Fun\u00e7\u00f5es das Entrevistas Preliminares"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Resumo do primeiro cap\u00edtulo do livro \u201cAs 4+1 condi\u00e7\u00f5es de an\u00e1lise\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tha\u00eds Rafael<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O texto do Quinet vem tratar primeiramente do que Freud nomeou de tratamento de ensaio. Tratamento este de uma ou mais semanas antes do in\u00edcio da an\u00e1lise propriamente dita, no qual o prosseguimento do tratamento est\u00e1 absolutamente ligada a transfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o autor, a express\u00e3o \u201centrevistas preliminares\u201d em Lacan est\u00e1 relacionada ao tratamento de ensaio em Freud. Esse conceito indica que h\u00e1 uma porta de entrada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise. Trata-se de um tempo de trabalho pr\u00e9vio. O nome \u201cpreliminar\u201d indica um corte que deve ser feito para que o sujeito entre em an\u00e1lise propriamente dita. Deve-se atravessar o umbral dos preliminares para entrar no discurso anal\u00edtico. Contudo, \u00e9 bom lembrarmos de que: \u201cN\u00e3o h\u00e1 entrada em an\u00e1lise sem as entrevistas preliminares\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, tanto nas entrevistas preliminares ou na pr\u00f3pria an\u00e1lise o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o livre. Esse momento inicial deve obedecer tamb\u00e9m \u00e0s regras de uma an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>As entrevistas preliminares possuem a mesma estrutura da an\u00e1lise, mas s\u00e3o distintas desta. Podemos ent\u00e3o escrever esse paradoxo assim:<\/p>\n\n\n\n<p>EP = A&nbsp; \u2194 EP # A<\/p>\n\n\n\n<p>As entrevistas preliminares s\u00e3o iguais \u00e0 an\u00e1lise, implicando que entrevistas preliminares s\u00e3o diferentes da an\u00e1lise. No ponto de vista do analista, as entrevistas preliminares podem ser divididas em dois tempos: um tempo de compreender e um tempo de concluir, no qual toma sua decis\u00e3o. \u00c9 nessa conclus\u00e3o que se faz surgir o ato psicanal\u00edtico no qual o analista assume seu papel, transformando esse passo inicial em an\u00e1lise propriamente dita.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinet vem dizer que existem tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es para as entrevistas preliminares: Primeiramente a <strong>fun\u00e7\u00e3o sintomal<\/strong> (sinto-mal), no qual o sujeito ir\u00e1 trazer a demanda, ir\u00e1 dizer de si. Essa demanda n\u00e3o deve ser aceita em estado bruto, mas deve ser questionada. Para Lacan, segundo o autor, s\u00f3 h\u00e1 uma demanda verdadeira para se dar in\u00edcio a uma an\u00e1lise: a demanda de desvencilhar de um sintoma. A demanda de an\u00e1lise \u00e9 correlata \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do sintoma enquanto \u201csintoma anal\u00edtico\u201d. \u00c9 preciso que a queixa se transforme numa demanda endere\u00e7ada ao analista, para que este seja decifrado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante que o sintoma, que \u00e9 um significado para o sujeito, readquira sua dimens\u00e3o de significante, implicando o sujeito e o desejo. O desejo, portanto, \u00e9 uma quest\u00e3o que cabe ao analista introduzir nessa dimens\u00e3o sintomal. Esse momento em que o sintoma \u00e9 transformado em um enigma \u00e9 tamb\u00e9m um momento de histeriza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o sintoma representa a divis\u00e3o do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o autor, \u00e9 de suma import\u00e2ncia que o sujeito dirija-se ao analista com a seguinte quest\u00e3o: O que isto quer dizer? O que significa isto? Tal posi\u00e7\u00e3o inclui um saber, pois sup\u00f5e que o analista det\u00e9m a verdade de seu sintoma.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda fun\u00e7\u00e3o, nomeada como <strong>fun\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica<\/strong>, ser\u00e1 relevante para o diagn\u00f3stico da estrutura cl\u00ednica. O diagn\u00f3stico s\u00f3 tem sentido se servir de orienta\u00e7\u00e3o para a condu\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise. Ademais, o diagn\u00f3stico s\u00f3 pode ser buscado no registro do simb\u00f3lico, onde s\u00e3o articuladas as quest\u00f5es fundamentais do sujeito. Sendo elas, sobre o sexo, a morte, a procria\u00e7\u00e3o, a paternidade e sobre o complexo de \u00c9dipo e a inscri\u00e7\u00e3o do Nome- do- Pai no Outro da linguagem. \u00c9 atrav\u00e9s do simb\u00f3lico que se pode fazer o diagn\u00f3stico diferencial estrutural, correspondentes \u00e0s tr\u00eas estruturas cl\u00ednicas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Estrutura Cl\u00ednica<\/strong><\/td><td><strong>Forma de Nega\u00e7\u00e3o<\/strong><\/td><td><strong>Local de Retorno<\/strong><\/td><td><strong>Fen\u00f4meno<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Neurose<\/td><td>Recalque<\/td><td>Simb\u00f3lico<\/td><td>Sintoma<\/td><\/tr><tr><td>Pervers\u00e3o<\/td><td>Desmentido<\/td><td>Simb\u00f3lico<\/td><td>Fetiche<\/td><\/tr><tr><td>Psicose<\/td><td>Foraclus\u00e3o<\/td><td>Real<\/td><td>Alucina\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Sobre o quadro acima, o autor vem dizer que, a respeito das estruturas cl\u00ednicas cada modo de nega\u00e7\u00e3o \u00e9 concomitante a um tipo de retorno do que \u00e9 negado. No recalque, por exemplo, o que \u00e9 negado no simb\u00f3lico retorna no pr\u00f3prio simb\u00f3lico sob a forma de sintoma, ou seja, o sintoma neur\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p>No desmentido, o que \u00e9 negado retorna no simb\u00f3lico, mas como forma de fetiche do perverso. Na psicose, o que \u00e9 negado no simb\u00f3lico retorna no <em>real<\/em> sob forma de alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 importante de ressaltar no caso da psicose \u00e9 que a resposta para a promessa de cura por parte do psicanalista n\u00e3o pode perpassar pela inser\u00e7\u00e3o deste psic\u00f3tico na forma f\u00e1lica. A foraclus\u00e3o do Nome \u2013 do \u2013 Pai exclui o sujeito da norma f\u00e1lica, riscando qualquer esperan\u00e7a do analista de faz\u00ea-lo bascular para o lado da neurose. Portanto, n\u00e3o se pode tornar um neur\u00f3tico um psic\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinet, em seu texto, vai abordar a quest\u00e3o da contra \u2013 indica\u00e7\u00e3o da Psican\u00e1lise para os psic\u00f3ticos, do manejo que deve ter um analista, afinal, de aceitarmos um pr\u00e9-psic\u00f3tico em an\u00e1lise j\u00e1 sabemos o resultado \u2013 psic\u00f3tico. A an\u00e1lise, como lugar da tomada da palavra, pode desencadear uma psicose at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o declarada.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O autor complementa sua id\u00e9ia dizendo que o importante nas entrevistas preliminares a ultrapassagem do plano das estruturas cl\u00ednicas para se chegar ao plano dos tipos cl\u00ednicos como, histeria e obsess\u00e3o, para que assim, possa estabelecer a estrat\u00e9gia da dire\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o obsessivo, o Outro goza, ou seja, esse Outro \u00e9 patente no personagem do Pai da horda primitiva, trata-se de um Outro que impede seu acesso ao sujeito. \u00c9 nesse lugar de Outro que ele se instala, marcando seu desejo pela impossibilidade. Na fantasia do obsessivo a marca do imposs\u00edvel desvanece do sujeito para escapar do Outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao situar esse Outro como mestre e senhor o obsessivo ocupa o lugar de escravo, no qual trabalha e se esfor\u00e7a na tentativa de enganar seu senhor, mas engana a si pr\u00f3prio acreditando que este m\u00e9todo lhe dar\u00e1 acesso ao Gozo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinet vem dizer que na cl\u00ednica do obsessivo encontramos dois significantes o pai e a morte, denotando a articula\u00e7\u00e3o da lei com o assassinato do pai na constitui\u00e7\u00e3o da d\u00edvida simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, na histeria o Outro \u00e9 o Outro do desejo, marcado pela falta e pela impot\u00eancia em alcan\u00e7ar o gozo. A hist\u00e9rica confere ao Outro o lugar de dom\u00ednio na cena de sedu\u00e7\u00e3o de sua fantasia. Isso aparece na cl\u00ednica como uma reivindica\u00e7\u00e3o ao Outro, que diferente do obsessivo, n\u00e3o deve nada e sim o Outro que lhe deve.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00e9rica n\u00e3o ocupa o lugar de escravid\u00e3o, apesar de estar sempre \u00e0 procura de um mestre. Inventa um senhor, n\u00e3o para ser submissa, mas sim para reinar apontando as falhas de sua domina\u00e7\u00e3o e mestria.<\/p>\n\n\n\n<p>E, por fim, a <strong>fun\u00e7\u00e3o transferencial<\/strong>, respons\u00e1vel pelo sujeito \u2013 suposto \u2013 saber, important\u00edssimo para o desenrolar da an\u00e1lise propriamente dita. Sobre este conceito Quinet relata que, a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do analista, ma sim do analisando e cabe a este analista manej\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do analista n\u00e3o \u00e9 a de saber e nem de compreens\u00e3o, mas ele deve estar ciente que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada no mal-entendido. Sua posi\u00e7\u00e3o deve ser uma posi\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia e n\u00e3o de saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinet aponta que o estabelecimento da transfer\u00eancia no registro do saber atrav\u00e9s de sua posi\u00e7\u00e3o \u00e9 correlato \u00e0 delega\u00e7\u00e3o \u00e0quele que \u00e9 seu alvo de um bem precioso que causa o desejo. O analista, portanto, ficar\u00e1 num primeiro momento no lugar de \u201csujeito suposto saber\u201d ligado ao imagin\u00e1rio daquele que o procura.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o autor vem falar da <strong>retifica\u00e7\u00e3o subjetiva. <\/strong>Essa retifica\u00e7\u00e3o subjetiva constitui na transi\u00e7\u00e3o, na passagem que o sujeito analisando faz em deixar de queixar-se dos outros e queixar-se de si, voltar \u00e0s quest\u00f5es que o acarretam para si mesmo. Para isso, s\u00e3o de suma import\u00e2ncia as pontua\u00e7\u00f5es do analista para que o sujeito a sua frente se responsabilize pelo que diz, implicar esse sujeito em suas queixas, afinal, as pontua\u00e7\u00f5es ser\u00e3o direcionadas ao inconsciente do analisando.<\/p>\n\n\n\n<p>No neur\u00f3tico obsessivo, a retifica\u00e7\u00e3o se situa no plano da retifica\u00e7\u00e3o da causalidade, que se apresenta como conseq\u00fc\u00eancia: sua impossibilidade de agir que \u00e9 correlata a sua modalidade de sustenta\u00e7\u00e3o do desejo como imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na histeria, a retifica\u00e7\u00e3o subjetiva visa \u00e0 implica\u00e7\u00e3o do sujeito em sua reivindica\u00e7\u00e3o dirigida ao Outro, deixando o lugar de vitima e sacrificada para a de agente da intriga da qual se queixa, e que sustenta seu desejo na insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a retifica\u00e7\u00e3o subjetiva trata-se de introduzir o sujeito em sua responsabilidade na escolha de sua neurose, pois a retifica\u00e7\u00e3o aponta para a escolha do sujeito, pois mesmo onde ele n\u00e3o pensa, ele escolhe.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>QUINET, <strong>Ant\u00f4nio. As 4 + 1 condi\u00e7\u00f5es de an\u00e1lise.<\/strong> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. 9.ed. p. 13 \u2013 34.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto do Quinet vem tratar primeiramente do que Freud nomeou de tratamento de ensaio. 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