{"id":821,"date":"2021-10-18T23:23:37","date_gmt":"2021-10-19T02:23:37","guid":{"rendered":"https:\/\/symbolize.com.br\/?p=821"},"modified":"2021-10-18T23:23:38","modified_gmt":"2021-10-19T02:23:38","slug":"doagnostico-diferencial-em-psicanalise-com-criancas-e-adolescentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/symbolize.com.br\/index.php\/2021\/10\/18\/doagnostico-diferencial-em-psicanalise-com-criancas-e-adolescentes\/","title":{"rendered":"Doagn\u00f3stico diferencial em psican\u00e1lise com crian\u00e7as e adolescentes"},"content":{"rendered":"\n<p><em>M\u00e1rcia Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Diante da dificuldade encontrada na cl\u00ednica sobre como fazer o diagn\u00f3stico diferencial em psican\u00e1lise muitas vezes nos deparamos com grandes d\u00favidas: Como intervir quando a estrutura ps\u00edquica do paciente n\u00e3o \u00e9 clara para n\u00f3s? Estamos diante de uma psicose n\u00e3o desencadeada ou uma neurose grave? Seria um autismo ou uma psicose?<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo deste trabalho \u00e9 refletir sobre o diagn\u00f3stico diferencial em psican\u00e1lise e sua import\u00e2ncia para a constru\u00e7\u00e3o do projeto terap\u00eautico e na dire\u00e7\u00e3o do tratamento psicanal\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz-se necess\u00e1rio compreender a sua concep\u00e7\u00e3o em contraponto com o diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico, bem como atentar para as premissas b\u00e1sicas para a sua constru\u00e7\u00e3o. Um diagn\u00f3stico equivocado pode levar a um tratamento inadequado cujo resultado \u00e9 a resist\u00eancia do quadro cl\u00ednico e at\u00e9 mesmo seu agravamento (FINELLI; MENDON\u00c7A, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Figueiredo e Machado (2000), as ci\u00eancias emp\u00edricas tomam por base o fen\u00f4meno e a psican\u00e1lise n\u00e3o pode confiar exclusivamente no fen\u00f4meno para definir um diagn\u00f3stico. \u00c9 fundamental o fazer falar, ou seja, proporcionar um lugar onde exista um que fale e o outro que escute. \u201cEste \u00e9 o of\u00edcio do psicanalista\u201d (FIGUEIREDO; TEN\u00d3RIO, 2002 p. 35). Para se fazer um diagn\u00f3stico \u00e9 \u201cimportante questionar como a linguagem se apresenta para cada sujeito: seja pelo del\u00edrio, pelas vozes, pela fantasia ou frase fundamental\u201d (p. 79). J\u00e1 os diagn\u00f3sticos nosol\u00f3gicos e sindr\u00f4micos da psiquiatria s\u00e3o derivados de uma cl\u00ednica com preponder\u00e2ncia do olhar em detrimento da escuta. Onde a voz do paciente aparece mediante ao question\u00e1rio de anamnese, que impede o seu comparecimento como um sujeito, testificando que o diagn\u00f3stico feito pela psiquiatria \u00e9 uma agrega\u00e7\u00e3o de sintomas (FIGUEIREDO; TEN\u00d3RIO, 2002).<\/p>\n\n\n\n<p>Lacan, citado por Bernardino (2004) diz que o diagn\u00f3stico em psican\u00e1lise \u00e9 feito a partir da transfer\u00eancia. Sendo que uma rela\u00e7\u00e3o transferencial estabelecida implica na posi\u00e7\u00e3o em que o paciente se coloca e na qual coloca o Outro. Este Outro \u00e9 entendido n\u00e3o somente como um semelhante, mas tamb\u00e9m como uma estrutura de linguagem, cultura e leis (BERNARDINO, 2004). Figueiredo e Machado (2000) diz que \u201co psicanalista, operando atrav\u00e9s da transfer\u00eancia, n\u00e3o trabalha como um leitor de fen\u00f4menos e sim como nomeador de um modo de incid\u00eancia do sujeito na linguagem\u201d (p. 67).<\/p>\n\n\n\n<p>Lacan no Semin\u00e1rio XI, diz que a transfer\u00eancia \u00e9 a atualiza\u00e7\u00e3o da realidade do inconsciente. A realidade ps\u00edquica \u00e9 pensada por Lacan no enlace de tr\u00eas dimens\u00f5es: real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio, e se constitui gradativamente a partir das primeiras rela\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a com o seu semelhante, como resposta fundamental ao desejo (GARCEZ; PORTELA, 2019; VORCARO; CAPANEMA, 2010). Voltando-se aos conceitos Freudianos vale ressaltar o Complexo de Castra\u00e7\u00e3o e o Complexo de \u00c9dipo como parte da constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Nazio (1997) a castra\u00e7\u00e3o caracteriza uma experi\u00eancia ps\u00edquica inconsciente vivenciada pela crian\u00e7a nos primeiros anos de vida. \u00c9 fundante da identidade sexual pelo reconhecimento da diferen\u00e7a anat\u00f4mica entre os sexos e perda da ilus\u00e3o de onipot\u00eancia que assegura que todos os seres humanos possuem um p\u00eanis. O encontro com esta limita\u00e7\u00e3o percebida no corpo reflete na vida ps\u00edquica com a ang\u00fastia. A castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u00e9 o desfecho poss\u00edvel do Complexo de \u00c9dipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo dos escritos de Freud, Ferrari, Piccinini e Lopes (2013), dizem que o Complexo de \u00c9dipo orienta o desejo, sendo primordial na constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do ser humano e estruturado pelo Complexo de Castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Complexo de \u00c9dipo refere-se \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que a crian\u00e7a estabelece com as figuras parentais, as quais ser\u00e3o as respons\u00e1veis pela constitui\u00e7\u00e3o de uma rede de representa\u00e7\u00f5es inconscientes e de afetos.\u201d (p. 240).<\/p>\n\n\n\n<p>Ferrari, Piccinini e Lopes (2013) trazem ainda as contribui\u00e7\u00f5es de Lacan (1957\/1995; 1958\/1999) a respeito da estrutura\u00e7\u00e3o do \u00c9dipo em tr\u00eas tempos, quando, introduzindo o conceito de falo, que amplia a tese da castra\u00e7\u00e3o freudiana.&nbsp; No primeiro momento quando a crian\u00e7a nasce ela vai ocupar o lugar de falo imagin\u00e1rio da m\u00e3e, ou seja, ela vai ser o falo da m\u00e3e, em uma completude que leva a uma ilus\u00e3o que n\u00e3o existe nenhuma falta. A m\u00e3e \u00e9 absoluta e a lei \u00e9 operada por ela sendo velada a fun\u00e7\u00e3o paterna.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo tempo do \u00c9dipo \u00e9 caracterizado por uma transi\u00e7\u00e3o entre o primeiro e terceiro tempo. Neste momento a falta aparece evidenciando que n\u00e3o h\u00e1 completude na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e\/filho e que a m\u00e3e deseja algo al\u00e9m do filho. A partir do desejo da m\u00e3e direcionado para outra coisa que n\u00e3o \u00e9 o filho \u00e9 que a crian\u00e7a perde o lugar de ser o falo e pode passar a desejar algo tamb\u00e9m. A falta aparece juntamente com a entrada do pai na rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre m\u00e3e e filho. Ele aparece como castrador e como sendo a lei. A partir deste momento acontece o terceiro tempo do \u00c9dipo onde o pai deixa de ser a lei e passa a representar a lei e permite que o filho entre na cultura (FERRARI, PICCININI; LOPES, 2013).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, Lacan define tr\u00eas estruturas b\u00e1sicas, conforme Bernardino (2004) descreve,<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230; ] a partir do referente da castra\u00e7\u00e3o (apontada a partir da percep\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual) e das respostas que o sujeito encontra, no campo da linguagem, para enfrentar a falta: a PSICOSE (cuja resposta \u00e9 a foraclus\u00e3o); a PERVERSAO (cuja resposta \u00e9 o desmentido); e a NEUROSE (cuja resposta \u00e9 o recalque). (BERNARDINO, 2004 p. 21)<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Vorcaro e Capanema (2010), o intercruzamento entre as dimens\u00f5es do real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio \u00e9 um acontecimento constitutivo da estrutura de qualquer sujeito. No entanto, pode-se ocorrer certas falhas que levariam o sujeito a desenvolver manifesta\u00e7\u00f5es psicopatol\u00f3gicas graves, como o autismo, psicose, fen\u00f4menos psicossom\u00e1ticos e debilidade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Figueiredo e Machado (2000) relatam que a partir dos anos 70 Lacan come\u00e7ou a trabalhar o diagn\u00f3stico a partir dos modos de amarra\u00e7\u00e3o dos 3 (tr\u00eas) registros no n\u00f3 borromeano. \u201cO Nome-do-Pai tem a fun\u00e7\u00e3o de ser um significante que amarra os 3 (tr\u00eas registros) \u2013 Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bernardino (2004), ressalta que \u00e9 necess\u00e1rio que se fa\u00e7a a distin\u00e7\u00e3o entre as psicoses da crian\u00e7a e do adulto, e que segundo Lacan (1955-56) n\u00e3o \u00e9 estrutural da mesma maneira (p.22). Para esta autora n\u00e3o \u00e9 conveniente se apressar em fechar um diagn\u00f3stico de psicose na cl\u00ednica com crian\u00e7as e considera que a proposta terap\u00eautica pela via da psican\u00e1lise pode proporcionar resultados favor\u00e1veis. \u201cPercebe-se que a rela\u00e7\u00e3o transferencial que ocorre entre a crian\u00e7a e o psicanalista, entre este e seus pais, no decorrer do tratamento, tem um papel fundamental na evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico (BERNARDINO, 2004 p.37).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante deste breve exposto, conclui-se que o diagn\u00f3stico diferencial em psican\u00e1lise \u00e9 feito sob transfer\u00eancia, buscando atentar-se para o que \u00e9 dito pelo sujeito e pelo lugar que este se coloca e coloca o Outro. O fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 descartado, por\u00e9m n\u00e3o pode ser colocado no centro do tratamento como orientador das interven\u00e7\u00f5es feitas pelo psicanalista. Como repetidamente disse a professora T\u00e2nia nas aulas \u201cdeve-se sempre interrogar e suspender as evid\u00eancias\u201d. Portanto, o diagn\u00f3stico diferencial tem um papel central na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, referenciando a \u00e9tica e o estatuto do desejo. Diz respeito ao cuidado do psicanalista em permanecer na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber, assegurando o lugar de suposto saber para que seja poss\u00edvel ao paciente construir um novo saber vindo do inconsciente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BERARDINO, Leda Mariza Fischer. As psicoses N\u00e3o-decididas da inf\u00e2ncia: um estudo psicanal\u00edtico. S\u00e3o Paulo: <strong>Casa do Psic\u00f3logo<\/strong>. 2004. &#8212; (Cole\u00e7\u00e3o 1\u2022 inf\u00e2ncia <em>I <\/em>dirigida por Claudia Mascarenhas Fernandes)<\/p>\n\n\n\n<p>FERRARI, Andrea Gabriela; PICCININI, Cesar Augusto; LOPES, Rita de C\u00e1ssia Sobreira. Atualiza\u00e7\u00e3o do Complexo de \u00c9dipo na rela\u00e7\u00e3o com o beb\u00ea: evid\u00eancias a partir de um estudo de caso. <strong>Estudos de psicologia<\/strong>, Campinas, p. 239-248, abr.-jun. 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>FIGUEIREDO, Ana Cristina; TEN\u00d3RIO, Fernando. O diagn\u00f3stico em psiquiatria e psican\u00e1lise. <strong>Rev. Latinoam.<\/strong> <strong>Psicopat. Fund<\/strong>., V, 1, p. &nbsp;29-43<\/p>\n\n\n\n<p>FIGUEIREDO, Ana Cristina; MACHADO, Ondina Maria Rodrigues. O diagn\u00f3stico em psican\u00e1lise: do fen\u00f4meno a estrutura. <strong>\u00c1gora <\/strong>v. III n. 2 jul\/dez 2000 p. 65-86<\/p>\n\n\n\n<p>FINELLI, Leonardo Augusto Couto; MENDON\u00c7A, Ang\u00e9lica Silveira Martins. Diagn\u00f3stico cl\u00ednico x diagn\u00f3stico em psican\u00e1lise: a import\u00e2ncia da escuta na constru\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico diferencial. <strong>Revista Bionorte<\/strong>, v. 4, n. 1, fev. 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>GARCEZ, Nathaly Lamas; PORTELA, Marcos Vin\u00edcius Zoreck. Diagn\u00f3stico diferencial na cl\u00ednica psicanal\u00edtica entre sintoma e sintoma psicossom\u00e1tico. <strong>Revista SBPH<\/strong>, vol.22 n.2. S\u00e3o Paulo, jul.\/dez. 2019<\/p>\n\n\n\n<p>NAZIO, J.-D. <strong>Li\u00e7\u00f5es sobre os 7 conceitos cruciais da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, 200p.<\/p>\n\n\n\n<p>VORCARO, \u00c2ngela Maria Resende; CAPANEMA, Carla Almeida. Desastre e Acontecimento na realidade ps\u00edquica. <strong>Psicologia em Revista<\/strong>, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 490-504, dez. 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante da dificuldade encontrada na cl\u00ednica sobre como fazer o diagn\u00f3stico diferencial em psican\u00e1lise muitas vezes nos deparamos com grandes d\u00favidas: Como intervir quando a estrutura ps\u00edquica do paciente n\u00e3o \u00e9 clara para n\u00f3s? Estamos diante de uma psicose n\u00e3o desencadeada ou uma neurose grave? 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